terça-feira, 31 de maio de 2011

Significado da Festa de Corpus Christi

Significado da Festa de Corpus Christi, celebrada nesta Quinta

Nesta quinta-feira, 23 de Junho de 2011, a Igreja Católica, em todo o mundo, comemora o dia de Corpus Christi. Nome que vem do latim e significa “Corpo de Cristo”.

A festa de Corpus Christi tem por objetivo celebrar solenemente o mistério da Eucaristia - o Sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo.

Acontece sempre em uma quinta-feira, em alusão à Quinta-feira Santa, quando se deu a instituição deste sacramento. Durante a última ceia de Jesus com seus apóstolos, Ele mandou que celebrassem Sua lembrança comendo o pão e bebendo o vinho que se transformariam em seu Corpo e Sangue.

"O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna e, eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. O que come deste pão viverá eternamente" (Jo 6, 55 - 59).

Através da Eucaristia, Jesus nos mostra que está presente ao nosso lado, e se faz alimento para nos dar força para continuar. Jesus nos comunica seu amor e se entrega por nós.

Origem da Celebração

A celebração teve origem em 1243, em Liège, na Bélgica, no século XIII, quando a freira Juliana de Cornion teria tido visões de Cristo demonstrando-lhe desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.

Em 1264, o Papa Urbano IV através da Bula Papal "Trasnsiturus de hoc mundo", estendeu a festa para toda a Igreja, pedindo a São Tomás de Aquino que preparasse as leituras e textos litúrgicos que, até hoje, são usados durante a celebração. Compôs o hino “Lauda Sion Salvatorem” (Louva, ó Sião, o Salvador), ainda hoje usado e cantado nas liturgias do dia pelos mais de 400 mil sacerdotes nos cinco continentes.

A procissão com a Hóstia consagrada conduzida em um ostensório é datada de 1274. Foi na época barroca, contudo, que ela se tornou um grande cortejo de ação de graças.

No Brasil

No Brasil, a festa passou a integrar o calendário religioso de Brasília, em 1961, quando uma pequena procissão saiu da Igreja de madeira de Santo Antônio e seguiu até a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima. A tradição de enfeitar as ruas surgiu em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais.

A celebração de Corpus Christi consta de uma missa, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento.

A procissão lembra a caminhada do povo de Deus, que é peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento esse povo foi alimentado com maná, no deserto. Hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo.

Durante a Missa o celebrante consagra duas hóstias: uma é consumida e a outra, apresentada aos fiéis para adoração. Essa hóstia permanece no meio da comunidade, como sinal da presença de Cristo vivo no coração de sua Igreja.

Junho: Mês do Sagrado Coração de Jesus e Corpus Christi!

Junho: Mês do Sagrado Coração de Jesus e Corpus Christi!

O mês de junho é dedicado ao Coração de Jesus e do grande sacramento da EUCARISTIA, centro da história de todos aqueles que por Ele entregam sua vida, nele aportam seu destino e esperança. É, portanto, também o mês de tantos santos muito conhecidos e amados do povo de Deus.

Como por exemplo: Santo Antonio, São João Batista, São Pedro e São Paulo.

Quero de refletir com todos o signficado da festa do nosso padroeiro - Corpus Christi (expressão latina que significa Corpo de Cristo) é uma festa móvel da nossa querida, amada e santa Igreja Católica que celebra a presença real e substancial de Cristo na Santíssima Eucaristia.
É realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes. É uma festa de 'preceito', isto é, para nós católicos é de comparecimento obrigatório participar da Missa neste dia, na forma estabelecida pela Conferência Episcopal do Brasil - CNBB.

A procissão pelas vias públicas, quando é feita, atende a uma recomendação do Código de Direito Canônico (cân. 944) que determina ao Bispo diocesano que a providencie, onde for possível, "para testemunhar publicamente a veneração para com a Santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo." É recomendado que nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o Bispo (cân. 395).

A nossa paróquia que tem como padroeiro a Santíssima Eucaristia este ano, receberá o Exmo. e Revmo. Sr. Dom Paulo Lopes de Faria - Arcebispo Emérito de Diamantina/MG que vem presidir o tríduo e a festa deste ano que tem como - tema: " EUCARISTIA PÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS". Este tema esta em sintonia o XVI - CONGRESSO EUCARISTICO NACIONAL que acontecerá no proximo ano em maio do dia 13 ao dia 16 na cidade de BRASILIA. Inclusive em nossa paróquia temos todas as quintas-feiras a ADORAÇÃO AO SANTÍSSIMO e rezamos todas as quintas a oração do congresso é nossa comunhão com a Igreja do Brasil que esta na arquidiocese de Brasilia que acolherá todo o Brasil, para esta grande festa da EUCARISTIA. Rezemos agora a oração do congresso:

Senhor Jesus, Tu és o Caminho!
Em meio a sombras e luzes,
alegrias e esperanças, tristezas e angústias,
Tu nos levas ao Pai.
Não nos deixes caminhar sozinhos.
Fica conosco, Senhor!

Tu és a Verdade!
Desperta nossas mentes
e faze arder nossos corações com a tua Palavra.
Que ela ilumine e aqueça os corações sedentos de justiça e santidade.
Ajuda-nos a sentir a beleza de crer em Ti!
Fica conosco, Senhor!

Tu és a Vida!
Abre nossos olhos para te reconhecermos
no “partir o Pão”, sublime Sacramento da Eucaristia!
Alimenta-nos com o Pão da Unidade.
Sustenta-nos em nossa fragilidade.
Consola-nos em nossos sofrimentos,
Faze-nos solidários com os pobres, os oprimidos e excluídos.
Fica conosco, Senhor!

Jesus Cristo: Caminho, Verdade e Vida,
No vigor do Espírito Santo,
Faze-nos teus discípulos missionários!
Com a humilde serva do Senhor, nossa Mãe Aparecida, queremos ser:
Alegres no Caminho para a Terra Prometida!
corajosas testemunhas da Verdade libertadora!
promotores da Vida em plenitude!
Fica conosco, Senhor! Amém!


Dando continuidade a origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao Século XIII. A nossa amada e muito querida Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado.

A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo então Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264.

O Papa Urbano IV foi ao cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. A ‘Fête Dieu’ (Festa de Deus) começou na paróquia de Saint Martin em Liège, em 1230, com autorização do arcediago para procissão eucarística só dentro da igreja, a fim de proclamar a gratidão a Deus pelo benefício da Eucaristia.

Em 1247, aconteceu a 1ª procissão eucarística pelas ruas de Liège, já como festa da diocese. Depois se tornou festa nacional na Bélgica.

O ofício foi composto por São Tomás de Aquino o qual, por amor à tradição litúrgica, serviu-se em parte de Antífonas, Lições e Responsórios já em uso em algumas Igrejas.

A festa mundial de Corpus Christi foi decretada em 1264. O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão, porque o Papa morreu em seguida. Mas se propagou por algumas igrejas, como na diocese de Colônia na Alemanha, onde Corpus Christi é celebrada desde antes de 1270. A procissão surgiu em Colônia e difundiu-se primeiro na Alemanha, depois na França e na Itália. Em Roma é encontrada desde 1350.

Hoje esta no mundo toda a celebração de testemunho da nossa fé de Adoração ao Senhor que se doa no Pão da Eucaristia. Eis o Pão Vivo descido do Céu! Viva Jesus nosso Rei e Senhor na Santíssima Eucaristia! Como dizia o nosso Papa aos congressista do Congresso Internacional em Quebec - TEMOS QUE SER EUCARISTIA PARA O MUNDO. Sejamos todos EUCARISTIA para o mundo. Transformemos o mundo em um campo de PAZ e HARMONIA. Venha participar conosco da nossa Festa e beber da sabedoria do pregador que é um HOMEM DE DEUS e que muito ama a EUCARISTIA e a IGREJA DE DEUS. Conto com sua participação. GRAÇAS E LOUVORES, SEJAM DADO A TODO MOMENTO.......

Padre Marcelo Campos da Silva. - Pároco de Cantagalo

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Carteira do Idoso garante passagens interestaduais para quem não tem como comprovar renda

Carteira do Idoso garante passagens interestaduais para quem não tem como comprovar renda.

A emissão do documento é feita pelas secretarias municipais de Assistência Social em parceria com o MDS. Até hoje, mais de 393 mil carteirinhas foram emitidas para pessoas com 60 anos ou mais e renda de até dois salários mínimos
Brasília, 26 – O acesso de idosos à gratuidade ou ao desconto de, no mínimo, 50% no valor das passagens interestaduais – ônibus, trens ou barcos – é um direito garantido pelo Estatuto do Idoso. Pela legislação, no sistema de transporte coletivo interestadual, as empresas reservarão duas vagas gratuitas por veículo para idosos com renda igual ou inferior a dois salários mínimos. De 2007 até hoje, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), por meio das secretarias municipais de Assistência Social, emitiram cerca de 393 mil Carteiras do Idoso, instrumento de acesso à gratuidade e ao desconto nas passagens.
O documento deve ser gerado pelas secretarias municipais apenas para pessoas com 60 anos de idade ou mais e que não tenham como comprovar renda individual igual ou inferior a dois salários mínimos. A carteirinha tem validade de dois anos, contados a partir da data de expedição, em todo território nacional. Quando não há mais vagas gratuitas, o beneficiário pode ter desconto de, no mínimo, 50% sobre o preço das passagens.
De acordo com o MDS, a participação dos órgãos gestores da assistência social na promoção do acesso ao benefício tarifário a idosos sem meios de comprovação de renda está amparada no Decreto nº 5.934/06, onde são estabelecidos mecanismos e critérios para aplicar os dispositivos do estatuto.
Passo a passo – Para a emissão da Carteira do Idoso, o interessado deve procurar o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de seu município ou a secretaria municipal de Assistência Social. O idoso será incluído no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal e vai receber o Número de Identificação Social (NIS). As carteiras são emitidas pelas secretarias, de acordo com modelo elaborado pelo MDS e que está disponível no SuasWeb. O acesso dos municípios ao sistema é feito por meio de senhas.
Pelo decreto de 2006, para ter direito ao desconto de, no mínimo, 50% no valor das passagens, o idoso deverá adquirir o bilhete de passagem obedecendo aos seguintes prazos: com, no máximo, seis horas de antecedência para viagens com distância de até 500km; com, no máximo, 12 horas de antecedência para viagens com distância acima de 500km.
As pessoas que têm como comprovar renda não necessitam da Carteira do Idoso para ter acesso às passagens interestaduais gratuitas ou ao desconto. Basta apresentar o comprovante de renda e o documento de identidade.
Há informações mais detalhadas sobre a Carteira do Idoso. Se você é gestor de assistência social, clique aqui. A família do idoso ou o próprio beneficiário pode tirar dúvidas aqui. Outras informações poderão ser obtidas pelo telefone 0800 707 2003.
Aline Menezes
(61) 3433-1065
Ascom / MDS
http://www.mds.gov.br/saladeimprensa

quinta-feira, 26 de maio de 2011

VOCAÇÃO CHAMADO DE DEUS



Vocação significa chamado: Alguém chama e alguém é chamado. Há uma ligação íntima entre aquele que vocaciona e aquele que é vocacionado ou chamado. Quem vocaciona dá a vocação e alimenta a chama do vocacionado.
A vocação, sem a qual nenhuma outra nos enriqueceria, é o chamado a existir, à vida. A vida humana, segundo a Palavra revelada, é dom sagrado, precioso e sublime do amor de Deus. Eis o que afirma a Bíblia: Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança". (Gen 1)
A Bíblia ratifica a Vocação à vida humana como Dom de Deus a cada pessoa e diz categoricamente que "o Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gen 2,7).
A imagem bíblica deixa clara a procedência da vida humana, matéria trabalhada pelas mãos do criador e pelo sopro vivificante do Espírito de Deus moldando à criatura humana em uma unidade perfeita, distinta e diferente Dele, mas criada à sua imagem e semelhança.
Somos chamados à vida, ou seja, a sua, a minha, as nossas vidas são dons de Deus, nós apenas as recebemos da gratuidade de seu amor. Mas... vida dada, vida recebida, o que fazer com a vida? Só temos uma vida e precisamos usá-la bem.



É necessário canalizá-la, a partir da nossa liberdade, iluminada pela fé e em diálogo com a Igreja, para objetivos que discernimos como "a vontade de Deus para nós" .Vocação é um desígnio pessoal do amor de Deus para cada pessoa. Quando Deus nos chamou à vida, no seu coração de Pai, Ele já guardava desde toda a Eternidade um estado de vida, uma graça para enriquecer a pessoa e enviá-la à missão.
Vocação e missão se encontram estreitamente ligados. Por isso, o que importa é discernir a vontade de Deus e abraçá-la. Se esta for o casamento, vamos assumí-la, se for o sacerdócio ou a vida religiosa ou mesmo consagrados como casados, assumamos a postura de Maria: "Faça-se em mim segundo a vossa Palavra"( Lc 1, 38 ).
Na grande vocação cristã há um chamado de Deus dirigido a todos: "sede santos porque eu sou Santo". No Novo Testamento está escrito "a vontade de Deus é a vossa santificação". Religiosos, padres e leigos vocacionados, são chamados antes de tudo à santidade.


Jesus nos ilumina para discernir a vontade de Deus, propondo o caminho do amor: "A quem me ama eu me manifestarei". A vocação à santidade é para todos, ninguém está excluído. No céu entra quem, aceitando o chamado de Deus, se deixa conduzir pelo Espírito Santo e se assemelha, no coração e na prática da vida, a Jesus, aqui na terra.
Mas, vocação, no caminho da Igreja, é chamado de Deus, graça que enriquece o batizado e o convida para uma consagração e uma missão. O primado do ser sobre o ter é o reconhecimento do sentido da vida como o chamado do amor gratuito de Deus, como dom livre e responsável de si mesmo aos outros em Cristo e na atitude evangélica de serviço de Maria. Não fostes vós que me escolhestes mas eu que vos escolhi" (Jo 15,16).
Vocacionados ao sacerdócio, à vida religiosa sob os mais diversos carismas são sempre pessoas amadas pessoalmente por Deus e candidatos à consagração. Ainda hoje Deus continua chamando. Qual sua resposta a Jesus que te chama?
Dom José Palmeira Lessa
Arc. Metropolitano de Aracaju - SE

Consagração pessoal ao Sagrado Coração


(Composta por Santa Margarida Maria)
Eu, (nome), dou e consagro ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo a minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e dores, não querendo servir-me de parte alguma de meu ser, senão para o honrar, amar e glorificar.

É esta a minha vontade irrevogável - pertencer-lhe e fazer tudo por seu amor, renunciando completamente ao que não for do seu agrado.

Eu vos tomo, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto do meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e inconstância, reparador de todos os meus defeitos e asilo seguro na hora da morte.

Sede, ó Coração de bondade, minha justificação para com Deus vosso Pai, e afastai de mim os castigos de sua justa cólera. Ó Coração de amor, ponho em Vós toda a minha confiança, pois tudo receio de minha fraqueza e malícia, mas tudo espero da vossa bondade.

Destruí em mim tudo o que vos possa desagradar ou resistir. Que o vosso puro amor se grave tão profundamente no meu coração, que eu não possa jamais esquecer-me nem separar-me de Vós.

Suplico-vos também, por vossa suma bondade, que o meu nme seja escrito em Vós, pois eu quero fazer consistir toda minha felicidade e minha glória em viver e morrer convosco na qualidade de vossa escrava.

Assim seja.

O APOSTOLADO DA ORAÇÃO


O Apostolado da Oração é uma organização composta por leigos católicos cuja finalidade é a santificação pessoal e a evangelização. Nasceu num colégio da Companhia de Jesus (de padres Jesuítas) na França em uma casa de estudos em Vals perto de Le Puy; nos estudantes de teologia e filosofia, presos em seus livros e temas escolares indóceis crescia o anseio de realizar algum apostolado direto nas paróquias junto ao povo. Inspirado pelo Espírito Santo, Pe: Francisco Xavier Gautrelet, jesuíta, no dia 3 de dezembro de 1844 lançou essa luminosa idéia, oferecer seus trabalhos e estudos sacrifícios e suas alegrias, ofereciam tudo, em espírito apostólico – assim nasceu o Apostolado da Oração.

No Brasil o Pe. Jesuíta Bento Schembri fundou o Apostolado da Oração em 30 de junho de 1867, no Recife/PE na Igreja da Santa Cruz. Também, em 1º. de outubro de 1871 o jesuita Pe. Bartolomeu Taddei fundou o primeiro centro do Apostolado da Oração na cidade de ITU/SP e em outros centros a nível diocesano e nacional. Nos arquivos do Apostolado da Oração da cidade de Itu existem, os livros, estado por estado, de todos aqueles consagrados ao Sagrado Coração de Jesus . O Pe. Taddei é considerado o fundador e propagador do Apostolado em terras brasileiras.

Nomeado Diretor Nacional, o Pe. Taddei estendeu o Apostolado a todos os estados, de tal forma que o Cardeal D. Sebastião Leme pôde afirmar que “o renascimento espiritual do Brasil é obra do Apostolado da Oração”. A Revista “ O Mensageiro”, órgão Oficial do Apostolado da Oração teve a sua primeira edição feita pelo Pe. Taddei em uma pequena tipografia na Igreja do Bom Jesus, em Itu, lançada no dia 1º. de junho de 1896 – hoje são editados 144mil exemplares.


Além disto, com a colaboração fervorosa do Apostolado, o Pe. Taddei realizou o Primeiro Congresso Católico Brasileiro em 1900, na Bahia, completado com o Congresso de São Paulo e o do Rio de Janeiro. Esses congressos prepararam o caminho para Ação Católica e para a Ação Social em nosso país. Intensificando a vida eucarística e o culto ao Sagrado Coração de Jesus, o Apostolado da Oração revitalizou por toda parte a prática da religião, tanto individual, como nos lares por meio da consagração das famílias, através da consagração dos municípios, cidades e estados de todo o Brasil. A consagração do nosso país foi realizada oficialmente por ocasião do 36º Congresso Eucarístico Internacional, celebrado em 1956 na cidade do Rio de Janeiro.
O Pe. Taddei faleceu no dia 03 de junho de 1913, na cidade de Itu/SP, junto ao Santuário Central do Sagrado Coração de Jesus por ele edificado e inaugurado em 10 janeiro de 1904 deixando em pleno funcionamento 1.390 centros do Apostolado da Oração espalhados por todo o Brasil, com cerca de 3 milhões de associados. Seus restos mortais repousam em uma urna de mármore dentro do Santuário Nacional, conforme foi o seu desejo.

Mãe do Redentor

Mãe do Redentor maio 11th, 2011
A Cheia de graça


“Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual no alto dos céus, nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais em Cristo” (Ef 1, 3). Estas palavras da Carta aos Efésios revelam o eterno desígnio de Deus Pai, o seu plano de salvação do homem em Cristo. É um plano universal, que concerne todos os homens criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gén 1, 26). Todos eles, assim como “no princípio” estão compreendidos na obra criadora de Deus, assim também estão eternamente compreendidos no plano divino da salvação, que se deve revelar cabalmente na “plenitude dos tempos”, com a vinda de Cristo. Com efeito, “n’Ele”, aquele Deus, que é “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” – são as palavras que vêm a seguir na mesma Carta – “nos elegeu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados aos seus olhos. Por puro amor Ele nos predestinou a sermos adoptados por Ele como filhos, por intermédio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade, para louvor da magnificência da sua graça, pela qual nos tornou agradáveis em seu amado Filho. N’Ele, mediante o seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1, 4-7).

O plano divino da salvação, que nos foi revelado plenamente com a vinda de Cristo, é eterno. Ele é também – segundo o ensino contido na mesma Carta e noutras Cartas paulinas (cf. Col 1, 12-14; Rom 3, 24; Gál 3, 13; 2 Cor 5, 18-29) – algo que está eternamente ligado a Cristo. Ele compreende em si todos os homens; mas reserva um lugar singular à “mulher” que foi a Mãe d’Aquele ao qual o Pai confiou a obra da salvação. 19 Como explana o Concílio Vaticano II, “Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente, feita aos primeiros pais caídos no pecado”, segundo o Livro do Génesis (cf. 3, 15). “Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emanuel” segundo as palavras de Isaías (cf. 7, 14). Deste modo, o Antigo Testamento prepara aquela “plenitude dos tempos”, quando Deus haveria de enviar “o seu Filho, nascido duma mulher …, para que nós recebêssemos a adopção como filhos”. A vinda ao mundo do Filho de Deus e o acontecimento narrado nos primeiros capítulos dos Evangelhos segundo São Lucas e segundo São Mateus.

Maria é introduzida no mistério de Cristo definitivamente mediante aquele acontecimento que foi a Anunciação do Anjo. Esta deu-se em Nazaré, em circunstâncias bem precisas da história de Israel, o povo que foi o primeiro destinatário das promessas de Deus. O mensageiro divino diz à Virgem: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). Maria “perturbou-se e interrogava-se a si própria sobre o que significaria aquela saudação” (Lc 1, 29): que sentido teriam todas aquelas palavras extraordinárias, em particular, a expressão “cheia de graça” (kecharitoméne).

Se quisermos meditar juntamente com Maria em tais palavras e, especialmente, na expressão “cheia de graça”, podemos encontrar uma significativa correspondência precisamente na passagem acima citada da Carta aos Efésios. E se, depois do anúncio do mensageiro celeste, a Virgem de Nazaré é chamada também a “bendita entre as mulheres” (cf. Lc 1, 42), isso explica-se por causa daquela bênção com que “Deus Pai” nos cumulou “no alto dos céus, em Cristo”. É uma bênção espiritual, que se refere a todos os homens e traz em si mesma a plenitude e a universalidade (“toda a sorte de bênçãos”), tal como brota do amor que, no Espírito Santo, une ao Pai o Filho consubstancial. Ao mesmo tempo, trata-se de uma bênção derramada por obra de Jesus Cristo na história humana até ao fim: sobre todos os homens. Mas esta bênção refere-se a Maria em medida especial e excepcional: ela, de facto, foi saudada por Isabel como “a bendita entre as mulheres”.

O motivo desta dupla saudação, portanto, está no facto de se ter manifestado na alma desta “filha de Sião”, em certo sentido, toda a “magnificência da graça”, daquela graça com que “o Pai … nos tornou agradáveis em seu amado Filho”. O mensageiro, efectivamente, saúda Maria como “cheia de graça”; e chama-lhe assim, como se este fosse o seu verdadeiro nome. Não chama a sua interlocutora com o nome que lhe é próprio segundo o registo terreno: “Miryam” ( = Maria); mas sim com este nome novo: “cheia de graça”. E o que significa este nome? Por que é que o Arcanjo chama desse modo à Virgem de Nazaré?

Na linguagem da Bíblia “graça” significa um dom especial, que, segundo o Novo Testamento, tem a sua fonte na vida trinitária do próprio Deus, de Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 8). É fruto deste amor a “eleição” – aquela eleição de que fala a Carta aos Efésios. Da parte de Deus esta “escolha” é a eterna vontade de salvar o homem, mediante a participação na sua própria vida divina (cf. 2 Pdr 1, 4) em Cristo: é a salvação pela participação na vida sobrenatural. O efeito deste dom eterno, desta graça de eleição do homem por parte de Deus, é como que um gérmen de santidade, ou como que uma nascente a jorrar na alma do homem, qual dom do próprio Deus que, mediante a graça, vivifica e santifica os eleitos. Desta forma se verifica, isto é, se torna realidade aquela “bênção” do homem “com toda a sorte de bênçãos espirituais”, aquele “ser seus filhos adoptivos … em Cristo”, ou seja, n’Aquele que é desde toda a eternidade o “Filho muito amado” do Pai.

Quando lemos que o mensageiro diz a Maria “cheia de graça”, o contexto evangélico, no qual confluem revelações e promessas antigas, permite-nos entender que aqui se trata de uma “bênção” singular entre todas as “bênçãos espirituais em Cristo”. No mistério de Cristo, Maria está presente já “antes da criação do mundo”, como aquela a quem o Pai “escolheu” para Mãe do seu Filho na Incarnação – e, conjuntamente ao Pai, escolheu-a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade. Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excepcional; e é amada neste “Filho muito amado” desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda “a magnificência da graça”. Ao mesmo tempo, porém, ela é e permanece perfeitamente aberta para este “dom do Alto” (cf. Tg 1, 17) Como ensina o Concílio, Maria “é a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem d’Ele a salvação”.

A saudação e o nome “cheia de graça” dizem-nos tudo isto; mas, no contexto do anúncio do Anjo, referem-se em primeiro lugar à eleição de Maria como Mãe do Filho de Deus. Todavia, a plenitude de graça indica ao mesmo tempo toda a profusão de dons sobrenaturais com que Maria é beneficiada em relação com o facto de ter sido escolhida e destinada para ser Mãe de Cristo. Se esta eleição é fundamental para a realização dos desígnios salvíficos de Deus, a respeito da humanidade, e se a escolha eterna em Cristo e a destinação para a dignidade de filhos adoptivos se referem a todos os homens, então a eleição de Maria é absolutamente excepcional e única. Daqui deriva também a singularidade e unicidade do seu lugar no mistério de Cristo.

por Papa João Paulo II
Encíclica Redemptoris Mater, Parte I, por Papa João Paulo II

Maria, Mãe de Deus

Maria, Mãe de Deus
Theotokos - título criado pelos cristãos


A contemplação do mistério do nascimento do Salvador tem levado o povo cristão não só a dirigir-se à Virgem Santa como à Mãe de Jesus, mas também a reconhecê-la como Mãe de Deus. Essa verdade foi aprofundada e compreendida como pertencente ao patrimônio da fé da Igreja, já desde os primeiros séculos da era cristã, até ser solenemente proclamada pelo Concílio de Éfeso no ano 431.


Na primeira comunidade cristã, enquanto cresce entre os discípulos a consciência de que Jesus é o filho de Deus, resulta bem mais claro que Maria é a Theotokos, a Mãe de Deus. Trata-se de um título que não aparece explicitamente nos textos evangélicos, embora eles recordem “a Mãe de Jesus” e afirmem que ele é Deus (Jô. 20,28; cf. 05,18; 10,30.33). Em todo o caso, Maria é apresentada como Mãe do Emanuel, que significa Deus conosco (cf. mt. 01,22-23).


Já no século III, como se deduz de um antigo testemunho escrito, os cristãos do Egito dirigiam-se a Maria com esta oração: “Sob a vossa proteção procuramos refúgio, santa Mãe de Deus: não desprezeis as súplicas de nós, que estamos na prova, e livrai-nos de todo perigo, ó Virgem gloriosa e bendita” (Da Liturgia das Horas). Neste antigo testemunho a expressão Theotokos, “Mãe de Deus”, aparece pela primeira vez de forma explícita.


Na mitologia pagã, acontecia com freqüência que alguma deusa fosse apresentada como Mãe de um deus. Zeus, por exemplo, deus supremo, tinha por Mãe a deusa Reia. Esse contexto facilitou talvez, entre os cristãos, o uso do título “Theotokos”, “Mãe de Deus”, para a Mãe de Jesus. Contudo, é preciso notar que este título não existia, mas foi criado pelos cristãos, para exprimir uma fé que não tinha nada a ver com a mitologia pagã, a fé na concepção virginal, no seio de Maria, d’Aquele que desde sempre era o Verbo Eterno de Deus.


No século IV, o termo Theotokos é já de uso freqüente no Oriente e no Ocidente. A piedade e a teologia fazem referência, de modo cada vez mais freqüente, a esse termo, já entrado no patrimônio de fé da Igreja.


Compreende-se, por isso, o grande movimento de protesto, que se manifestou no século V, quando Nestório pôs em dúvida a legitimidade do título “Mãe de Deus”. Ele de fato, propenso a considerar Maria somente como Mãe do homem Jesus, afirmava que só era doutrinalmente correta a expressão “Mãe de Cristo”. Nestório era induzido a este erro pela sua dificuldade de admitir a unidade da pessoa de Cristo, e pela interpretação errônea da distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes n’Ele.


O Concílio de Éfeso, no ano 431, condenou as suas teses e, afirmando a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única pessoa do Filho, proclamou Maria Mãe de Deus.


As dificuldades e as objeções apresentadas por Nestório oferecem-nos agora a ocasião para algumas reflexões úteis, a fim de compreendermos e interpretarmos de modo correto esse título.


A expressão Theotokos, que literalmente significa “aquela que gerou Deus”, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina. O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz Maria.


Proclamando Maria “Mãe de Deus”, a Igreja quer, portanto, afirmar que Ela é a “Mãe do Verbo encarnado, que é Deus”. Por isso, a sua maternidade não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana.


A maternidade é relação entre pessoa e pessoa: uma mãe não é Mãe apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera. Maria, portanto, tendo gerado segundo a natureza humana a pessoa de Jesus, que é a pessoa divina, é Mãe de Deus.


Ao proclamar Maria “Mãe de Deus”, a Igreja professa com uma única expressão a sua fé acerca do Filho e da Mãe. Esta união emerge já no Concílio de Éfeso; com a definição da maternidade divina de Maria, os Padres queriam evidenciar a sua fé a divindade de Cristo. Não obstante as objeções, antigas e recentes, acerca da oportunidade de atribuir este título a Maria, os cristãos de todos os tempos, interpretando corretamente o significado dessa maternidade, tornaram-no uma expressão privilegiada da sua fé na divindade de Cristo e do seu amor para com a Virgem.


Na Theotokos a Igreja, por um lado reconhece a garantia da realidade da Encarnação, porque – como afirma Santo Agostinho – “se a Mãe fosse fictícia seria fictícia também a carne... fictícia seriam as cicatrizes da ressurreição” (Tract. In Ev. loannis, 8,6-7). E, por outro, ela contempla com admiração e celebra com veneração a imensa grandeza conferida a Maria por Aquele que quis ser seu filho. A expressão “Mãe de Deus” remete ao Verbo de Deus que, na Encarnação, assumiu a humildade da condição humana, para elevar o homem à filiação divina. Mas esse título, à luz da dignidade sublime conferida à Virgem de Nazaré, proclama, também, a nobreza da mulher e sua altíssima vocação. Com efeito, Deus trata Maria como pessoa livre e responsável, e não realiza a Encarnação de seu Filho senão depois de ter obtido o seu consentimento.


Seguindo o exemplo dos antigos cristãos do Egito, os fiéis entregam-se Àquela que, sendo Mãe de Deus, pôde obter do divino Filho as graças da libertação dos perigos e da salvação eterna.


Extraído do livro A virgem Maria
João Paulo II

A origem e a função dos dons

Os dons são dados em benefício da comunidade


São Paulo deixa claro que os dons, carismas, ministérios e atividades provêm de Deus, de Jesus, do Espírito Santo. Sendo assim, não são conseguidos pelo intelecto ou esforço humano, mas dados gratuitamente por intermédio da ação do Espírito (Cf. I Coríntios 12,1-31).
Paulo também demonstra a finalidade deles. As pessoas recebem dons diversos e estes devem ser colocados em prol do outro para o bem comum (cf. id 12,7). E relata alguns desses dons. Interessante notar que o apóstolo começa pelo dom da sabedoria, tema que perpassa toda a epístola dele ao povo de Corinto. Apesar de já ter deixado claro que eles [dons] são dados em benefício da comunidade, dá ênfase à origem deles. A partir daí ele desenvolve com mais vagar a finalidade dos dons, que são o serviço ao próximo. E para isso utiliza como exemplo o corpo humano (id. 12,12), dessa forma reforça a questão da unidade que o próprio Espírito proporciona. No batismo somos todos iguais (id. 12,13-14).


Interessante é que o apóstolo dos gentios começa por demonstrar a importância dos membros considerados menos importantes em comparação com outros mais vistosos: pé/mão e ouvido/olho (id. 12, 15-17). E assim atesta a importância dos mais fracos na comunidade, chamando-os de indispensáveis , pois também fazem parte do corpo da Igreja, cuja cabeça é Cristo (id. 12,18.20.22).

Ataca aqueles que se consideram superiores e não querem contar com os mais fracos (id. 12,21). Reforça a importância desses membros e, ao compará-los com partes íntimas do corpo, mostra que, apesar de serem considerados menos nobres, são justamente estes que precisam ser mais honrados (id. 12, 22-24). O apóstolo faz essa comparação para que não haja divisão e que todos sejam valorizados (id. 12,25), de modo que todos participem da vida dos demais membros da comunidade. E dessa forma cada um se sinta singular diante de Deus e da comunidade (id. 12,26-27).

E, além de alguns carismas já citados e outros novos, finaliza o trecho com atividades hierárquicas – apóstolos, profetas e mestres (id. 12,28). Esses cargos também participam da mesma dinâmica dos carismas. Nisso o apóstolo inclui todos da comunidade. Independentemente do carisma, do dom, da função, da atividade… são todos importantes, cada um possui um lugar específico, mas são todos membros do mesmo corpo (id. 12,29-30). E dessa maneira abre o tema seguinte, que diz respeito ao anseio pelo dom mais valioso, que, de tão importante, não é tratado como um dos carismas simplesmente, mas um caminho que ultrapassa a qualquer outro: o dom da caridade (id. 12,31).


4 – Como aplicar o texto na vida:

- Quais os dons que o Espírito Santo me concedeu?

- Coloco meus dons em favor do bem comum?

- Tenho consciência de que todos possuem dons e que todos possuem sua importância?

- Eu me enxergo como membro do Corpo de Cristo?

Como vencer a violência


Quando Deus é retirado de cena, o homem ocupa o lugar d’Ele
A Igreja ensina as razões profundas da violência; acima de tudo está num coração sem Deus, sem amor ao irmão, o qual não é visto como “imagem e semelhança de Deus”. E quando Deus é retirado de cena, o homem ocupa o lugar d’Ele e a dignidade humana já não é mais respeitada. O "não" dito ao Senhor acaba se transformando em um "não" dito ao homem, por isso vemos hoje a pior de todas as violências: o aborto e a eutanásia, o sacrifício da vida humana; além dos assaltos, sequestros, roubos, corrupções de toda ordem, pedofilia, estupros, incestos, violência nos lares contra as crianças, entre outros.

Não basta encher as nossas ruas de policiais armados e bem equipados para acabar com a violência – embora isso seja necessário para combatê-la de imediato –; é preciso mais. É preciso a "educação para a paz". Essa educação exige que se ensine às crianças e aos jovens, nos lares e nas escolas, a dignidade de todo e qualquer ser humano. A moral cristã tem como base essa dignidade. Tudo aquilo que a Igreja condena como imoral é porque fere a dignidade da pessoa. A base da violência está na falta da vivência moral e na relativização do que seja o bem; o mal tem gerado muitas formas de violência.

Um fator de importância máxima na questão da violência é a família, pois ela é a “escola de todas as virtudes”, e é nela que a criança deve aprender com os pais e os irmãos a respeitar e a ser respeitada. Mas como vai a família? Infelizmente mal; a imoralidade tem destruído a família e seus valores cristãos. Muitas estão destruídas e há muitos filhos sem a presença imprescindível dos pais para educá-los. Milhares de adolescentes e jovens ficam grávidas sem ao menos terem um lar para receber seus filhos. Como disse o saudoso Papa João Paulo II, no Brasil há milhares de crianças “órfãs de pais vivos”. Que futuro terão essas crianças? Muitas delas acabarão na rua e no mundo do crime e da violência. Sabemos que quase a totalidade dos nossos presos são jovens.

E por que tantos jovens acabam no mundo do crime? Porque lhes faltam um pai e uma mãe que lhes ensinem o caminho da honradez, da virtude, da escola e do trabalho. O trabalho é a sentinela da virtude.



Hoje quase não faltam escolas para as crianças, nem mesmo catequese nas paróquias, mas faltam os pais que as conduzam à escola e à igreja. Portanto, sem a reestruturação da família, segundo o coração de Deus, na qual não existam o divórcio, a traição, o incesto, as brigas, o vício, o estupro, a pedofilia, etc., não se poderá acabar com a violência na sociedade. E sobretudo, sem Jesus, sem o Evangelho, sem a vivência moral ensinada pela Igreja de Cristo, não haverá paz verdadeira e duradoura. Sem isso será inócuo lutar pela paz. Diz o salmista que “se não é Deus quem guarda a cidade, em vão vigiam os seus sentinelas” (Sl 126, 1).

PAPA PEDE À MARIA QUE INTERCEDA PELA UNIDADE DA IGREJA NA CHINA


O dia de Virgem de Sheshan é celebrado anualmente no dia 24 de maio
“Nossa Senhora de Sheshan, sustente o empenho de todos na China, entre os cansaços cotidianos, que eles continuem a crer, a esperar, a amar, a fim que jamais temam em falar de Jesus no mundo e do mundo a Jesus”. Essa é uma passagem da intensa oração escrita pelo Papa Bento XVI para este dia de oração pela China celebrado nesta terça-feira, 24.

Depois da Catequese da quarta-feira, 18, o Papa pediu que todos os cristãos do mundo se dedicassem a orar pela Igreja na China no dia dedicado à memória litúrgica de Nossa Senhora Auxiliadora, venerada com grande devoção no Santuário de Sheshan em Shanghai.

Leia mais
.: Papa faz novo apelo à oração pela Igreja na China

O Santo Padre destacou que a Igreja na China, sobretudo neste momento, necessita da oração de toda a Igreja no mundo para reconstruir sua unidade. “Convido, em primeiro lugar, todos os católicos chineses a continuar e a intensificar a própria oração, sobretudo a Maria, Virgem forte. Mas também para todos os católicos do mundo, rezar pela Igreja que está na China deve ser um compromisso: esses fiéis têm direito à nossa oração, têm necessidade da nossa oração”, salientou.

A devoção à Virgem de Sheshan, conhecida como "Auxiliadora dos Cristãos", difundiu-se por toda região de Sheshan em 1864, quando um religioso chinês construiu sobre a colina um quiosque hexagonal, no qual depositou uma imagem da Virgem Maria pintada por ele.


Leia a oração escrita pelo Papa para este dia de oração pela China

Virgem Santíssima, Mãe do Verbo encarnado e nossa Mãe,
venerada com o título de Auxiliadora dos cristãos no Santuário de Sheshan,
olha para ti com devoto afeto toda a Igreja na China,
estamos hoje diante de ti para implorar a sua proteção.
Volta o seu olhar para o povo de Deus e guia-o com cuidados maternos sob a estrada da verdade e
do amor, a fim que seja em cada circunstância fermento de harmoniosa convivência entre todos os cidadãos.
Com o doce “sim” pronunciado em Nazaré, tu consentiu
ao eterno Filho de Deus se tornar carne no seu ventre virginal
e começar, assim, a história da obra da Redenção,
ao qual colaborou com boa vontade e dedicação,
aceitando que a espada da dor perfurasse a sua alma,
até o momento supremo da Cruz, quando sob o Calvário permaneceste
firme ao lado do seu Filho que moria para que o homem vivesse.
Naquele momento tu se tornou, de uma maneira nova, Mãe
de todos aqueles que acolhem na fé o teu Filho Jesus
e aceiram segui-lo carregando sua Cruz nas costas.
Mãe da esperança, na escuridão do Sábado Santo caminhastes
com inabalável confiança, ao encontro da manhã de Páscoa,
doa a teus filhos a capacidade de discernir em cada situação,
mesmo nas mais escuras, os sinais da presença amorosa de Deus.
Nossa Senhora de Sheshan, sustente o empenho de todos na China
entre os cansaços cotidianos, que eles continuem a crer, a esperar, a amar,
a fim que jamais temam em falar de Jesus no mundo e do mundo a Jesus
Na imagem que encima o Santuário, tu eleva o seu Filho,
apresentando-o ao mundo com os braças abertos num gesto de amor.
Auxilia os católicos chineses a ser sempre testemunhas confiáveis deste amor,
mantendo unida a rocha de Pedro sob a qual é construída a Igreja.
Mãe da China e da Ásia, ora por nós agora e sempre. Amém!

Nicole Melhado/Canção Nova Notícias, com Rádio Vaticano (Tradução: equipe CN Notícias)

Por causa da tua palavra


Por causa da tua palavra
Por causa da libertação
Por causa de um pouco de terra
Por uma fatia de pão
Mataram mais um irmão
Por causa de um mundo mais justo
Por causa de tanta opressão
Por causa de coisas que disse
Por ter defendido os irmãos
Mataram mais um irmão
(Padre Zezinho)


Mataram mais um irmão, mataram mais uma irmã. O latifúndio com a clave da impunidade, sustentada pelo Estado omisso, não hesita em impor pela mais vil violência sua vontade. Quantas mortes ele causará, antes que ele possa ouvir as pessoas chorarem? Aguardaremos a resposta do vento?
A inoperância do Estado diante de tanta violência, diante de pedidos de proteção negado, diante dos olhos fechados da justiça para o cidadão que não ostenta riquezas materiais e a ânsia de devastar vida por dinheiro resultou na morte de dois irmãos. Representantes do Estado omisso tem manchas de sangue em suas mãos. Quantas mortes ele causará, antes que ela possa ouvir as pessoas chorarem?
Ao mesmo tempo que esses irmãos eram mortos homens de colarinho branco aprovavam o Novo Código Florestal com nocivas emendas, atirando, simbolicamente nos anseios de todos que desejam uma Amazônia, um Brasil, um planeta sustentável.
O mandato da senadora Marinor Brito (Líder do PSOL no senado federal) se solidariza com a família do Zé da Castanha e de sua esposa, Maria do Espírito Santo da Silva, bem como com a causa que defenderam e juntos com outros ativistas e lutadores sociais preocupados com a questão ambiental e a justeza da distribuição da terra continuará lutando para que esses crimes sejam investigados com seriedade e com a rigorosidade para que a impunidade, tão comum desde os tempos mais remotos, não prevaleça mais uma vez, sobretudo nos crimes que envolvam a luta pela terra e pela presenvação da floresta.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Declaração dos direitos das pessoas com deficiência
Resolução aprovada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas em 09/12/75

A Assembléia Geral
Consciente da promessa feita pelos Estados Membros na Carta das Nações Unidas no sentido de desenvolver ação conjunta e separada, em cooperação com a Organização, para promover padrões mais altos de vida, plenos empregos e condições de desenvolvimento e progresso econômico e social.

Reafirmando sua fé nos direitos humanos, nas liberdades fundamentais e nos princípios de paz, de dignidade e valor da pessoa humana e de justiça social proclamada na carta.

Recordando os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dos Acordos Internacionais dos Direitos Humanos, da Declaração dos Direitos da Criança e da Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardadas, bem como os padrões já estabelecidos para o progresso social nas constituições, convenções, recomendações e resoluções da Organização Internacional do Trabalho, da Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas, do Fundo da Criança das Nações Unidas e outras organizações afins.

Lembrando também a resolução 1921 (LVIII) de 6 de maio de 1975, do Conselho Econômico e Social, sobre prevenção da deficiência e reabilitação de pessoas

Declaração.

Resolução adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas 9 de dezembro de 1975 Comitê Social Humanitário e Cultural.
Legislação Brasileira:

* Constituição Federal de 1988:
- art. 7º, XXXI, que proíbe qualquer discriminação no tocante a salário e critério de admissão do trabalhador portador de deficiência;
- art.23, II, que atribui às pessoas jurídicas de direito público interno cuidar da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência;
- art. 24, XIV, determinando a competência concorrente da União, Estados e Municípios em matéria de proteção e integração social das pessoas portadoras de deficiência;
- art. 37, VII, que assegura por lei a reserva de percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência;
- art.203, IV, que assegura assistência social aos necessitados, com habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária;
- art. 203, V que garante um salário mínimo ao portador de deficiência que não pode prover sua manutenção;
- art. 208, III que impõe ao Estado o dever de dar atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência;
- art. 224 determinando que por lei sejam adaptados logradouros, edifícios e transportes públicos às condições de utilização pelos deficientes;
- art. 227, § 1º, II, que obriga a criação de programas de prevenção e atendimento especializado para aos deficientes, facilitando o acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos.


· Lei 7.347/85, art.1º, IV, discorrendo sobre a Lei de Ação Civil Pública. Cabível em alguns casos para a aplicação de medidas e ações relacionadas aos direitos dos deficientes.

· Lei 7.405, de 12.11.85, que dispôs sobre o Símbolo Internacional de Acesso para utilização por pessoas portadoras de deficiência;

· Lei Complementar nº 53/ 1986- "Concede isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias - ICM, para veículos destinados a uso exclusivo de paraplégicos ou de pessoas portadoras de defeitos físicos".

· Lei nº 7.613 - de 13 de julho de 1987 "Concede isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI na aquisição de automóveis de passageiros, e dá outras providências".

· Lei nº 7.752 - de 14 de abril de 1989 "Dispõe sobre benefícios fiscais na área do Imposto sobre a Renda e outros tributos, concedidos ao desporto amador".

· Lei 7.853, de 24.10.89, que dispõe sobre o apoio e integração social dos deficientes e institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos destas pessoas, disciplinado a atuação do Ministério Público, bem como define crimes e dá outras providências, prevendo crime a negação, sem justa causa, a alguém, por motivos derivados se sua deficiência, de emprego ou trabalho, assim como impedimento, sem justa causa, do acesso a qualquer cargo público, por idêntico motivo, estipulando pena de reclusão de um a quatro anos;

· Lei nº 8.000 - de 13 de março de 1990 "Concede isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, na aquisição de automóveis de passageiros, e dá outras providências".

· Lei nº 8.028 - de 12 de abril de 1990 "Dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, e dá outras providências".

· Lei nº 8.069 - de 13 de julho de 1990 "Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências".

· Lei nº 8.112 - de 11 de dezembro de 1990 "Dispõe sobre o regime jurídico dos Servidores Públicos Civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais".

· Lei nº 8.160 - de 08 de janeiro de 1.991 "Dispõe sobre a caracterização de símbolo que permita a identificação de pessoas portadoras de deficiência auditiva".

· Lei nº 8.212 - de 24 de julho de 1991 "Dispõe sobre a organização da Seguridade Social, institui Plano de Custeio, e dá outras providências".

· Lei 8.213/91, introduziu a chamada reserva de mercado, obrigando as empregadoras reservar certo número de cargos em percentuais aos beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiências;

· Lei nº 8.666 de 21 de junho de 1993 "Dispositivos referentes ao portador de deficiência, na Lei das Licitações".

· Lei nº 8.686 - de 20 de julho de 1993 "Dispõe sobre o reajustamento da pensão especial aos deficientes físicos portadores da Síndrome de Talidomida, instituída pela Lei nº 7.070, de 20 de dezembro de 1982".

· Lei nº 8.687 - de 20 de julho de 1993 "Retira da incidência do Imposto de Renda benefícios percebidos por deficientes mentais".

· Lei nº 8.742 - de 07 de dezembro de 1993 "Dispõe sobre a organização da Assistência Social e dá outras providências".

· Lei 8.899, de 19.6.94, que concede passe livre aos portadores de deficiência no sistema de transporte coletivo interestadual.

· Lei nº 8.909 - de 6 de julho de 1994 "Dispõe, em caráter emergencial, sobre a prestação de serviços por entidades de assistência social, entidades beneficentes de assistência social e entidades de fins filantrópicos e estabelece prazos e procedimentos para o recadastramento de entidades junto ao Conselho Nacional de Assistência Social, e dá outras providências".

· Lei nº 8.989 - de 24 de fevereiro de 1995 "Dispõe sobre isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na aquisição de automóveis para utilização no transporte autônomo de passageiros, bem como por pessoas portadoras de deficiência física e aos destinados ao transporte escolar, e dá outras providências".

· Lei nº 9.029 - de 13 de abril de 1995 "Proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização, e outras práticas discriminatórias, para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho, e dá outras providências".

· Lei nº 9.045 - de 18 de maio de 1995 "Autoriza o Ministério da Educação e do Desporto e o Ministério da Cultura a disciplinarem a obrigatoriedade de reprodução, pelas editoras de todo o País, em regime de proporcionalidade, de obras em caracteres Braille, e a permitir a reprodução, sem finalidade lucrativa, de obras já divulgadas, para uso exclusivo de cegos".

· Lei nº 9.263 - de 12 de janeiro de 1996 "Regula o § 7º, do art. 226 da Constituição Federal, que trata do planejamento familiar, estabelece penalidades e dá outras providências".


Fonte de Pesquisa: http://www.amputadosvencedores.com.br/direitosdosdeficientes.htm

ESTATUTO DA CRIANÇA E ADOLESCENTE- ECA



O ECA é um conjunto de normas do ordenamento jurídico brasileiro que tem como objetivo a proteção integral da criança e do adolescente, aplicando medidas, e expedindo encaminhamentos.


Ele foi instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990 e regulamenta os direitos das crianças e dos adolescentes inspirado pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988, internalizando uma série de normativas internacionais:


Declaração dos Direitos da Criança (Resolução 1.386 da ONU - 20 de novembro de 1959);
Regras mínimas das Nações Unidas para administração da Justiça da Infância e da Juventude - Regras de Beijing (Resolução 40/33 - ONU - 29 de novembro de 1985);
Diretrizes das Nações Unidas para prevenção da Delinqüência Juvenil.
O Estatuto se divide em 2 livros: o primeiro trata da proteção dos direitos fundamentais a pessoa em desenvolvimento e o segundo trata dos órgãos e procedimentos protetivos.


Encontram-se os procedimentos de adoção (Livro I, capítulo V), a aplicação de medidas sócio-educativas (Livro II, capítulo II), do Conselho Tutelar (Livro II, capítulo V), e também dos crimes cometidos contra crianças e adolescentes.

Conceitos utilizados no Estatuto:
Criança:
Nos termos do art. 2º da Lei 8.069/90, considera-se criança a pessoa de até 12 (doze) anos de idade incompletos. É proibido qualquer tipo de trabalho adulto a menores de 14 anos, salvo na condição do aprendiz.

Adolescente:
É considerado adolescente, o sujeito com idade entre 12 e 18 anos.


FONTE DA PESQUISA: http://pt.wikipedia.org/


VEJA NA ÍNTEGRA:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm

terça-feira, 24 de maio de 2011

A VOCAÇÃO DA IGREJA

Vocação da Igreja


Para falar da vocação da Igreja precisamos, em primeiro lugar, entender o que é Igreja e qual é a sua missão.

A Igreja é mistério de comunhão trinitária. O supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na Trindade das pessoas de um só Deus Pai e Filho no Espírito Santo.

O Vaticano II apresenta a Igreja como "Povo de Deus", assembléia dos chamados, dos convocados. A ideia Povo de Deus recorda que a Igreja é uma realidade histórica, fruto da livre iniciativa de Deus e da livre resposta dos seres humanos. Essa expressão indica a Igreja em sua totalidade, ou seja, naquilo que é comum a todos os seus membros. Pela graça do Batismo nos tornamos filhos e filhas de Deus, membros da comunidade de fé- Igreja. O Batismo é, portanto, uma verdadeira vocação: a vocação de ser cristão, Isto é, ser cristão é ser seguidor de Jesus Cristo.

"Não há, pois, em Cristo e na Igreja, nenhuma desigualdade em vista de raça ou nação, condição social ou sexo (...) porque todos vós sois um em Cristo Jesus". (Gl 3,28). Faz parte desta condição comum - dado pela fé, esperança e caridade e pêlos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Eucaristia - a participação de todo o Povo de Deus nas funções profética, sacerdotal e real de Cristo (cf. n° 71).

A noção de Povo de Deus exprime então a profunda unidade, a comum dignidade e a fundamental habilitação de todos os membros da Igreja à participação carismática e ministerial. Esta é a condição cristã que é comum a todos os membros da Igreja.

Um exemplo ajuda. Não basta ter um carro, último modelo, com as funções mais sofisticadas, se suas peças não estão colocadas no lugar certo, instaladas e ajustadas devidamente. Com certeza não funcionará. Pode ser um simples fusível, uma válvula, um distribuidor elétrico, um ejetor de combustível... cada peça é importante, imprescindível na sua função. Nenhum deles pode substituir o outro. O carro é as peças no seu lugar. Cada peça em seu lugar é o carro.

A Vocação da Igreja acontece na medida que cada membro dela assume sua vocação na Igreja. Cada vocação na Igreja transfigura o rosto vocacional da Igreja.



1. Ser COMUNIDADE (de comunhão e participação, co-responsável)

O Concilio fala de uma Igreja-comunidade convocada pela Trindade, "povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (LG 4)

Somente esta visão de Igreja contribui para que todos os seus membros vivam em estado de vocação e de missão, sentindo-se escolhidos pelo Pai, chamados pelo Filho e
enviados pelo Espírito pata o serviço ao Reino.
Só uma Igreja imagem da Trindade,

"unidade dos fiéis que constituem um só corpo em Cristo" (LG 3)
na igual dignidade e na variedade de funções (LG 32)
que abre espaço para a comunhão e participação,
pode tornar-se o espaço adequado para o surgimento e desenvolvimento
das vocações e seu engajamento na missão evangelizadora.

Os primeiros cristãos entenderam muito bem o que Jesus queria da sua Igreja. No livro dos Atos dos Apóstolos, vamos encontrar o primeiro retrato da Igreja:

"Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir o pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas, vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um., e cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação" (At 2, 42-47).

Uma Igreja que queira animar sua Pastoral Vocacional deve colocar como meta constante a intensificação da vida comunitária, da participação e da co-responsabilidade:

- na base (grupos de reflexão e ação),
- nas estruturas (conselhos, equipes de coordenação),
- na coordenação (planos pastorais, prioridades)


2. Ser comunidade SERVIDORA (evangelizadora e missionária)

O fim primeiro e fundamental da Igreja é servir, como Cristo. Por isso a Igreja comunidade também é chamada de povo de servidores.

A principal missão ou tarefa desse serviço é evangelizar. A Igreja existe para evangelizar, essa é a sua missão, o seu serviço.

Foi o pedido de Jesus antes de subir para o céu: "Ideportado o mundo e fazei todos os homens meus discípulos"^. 28,19). São Paulo tinha consciência disto e dizia: "Ai de m/m se eu não anunciar o Evangelho" (1Cor9,16).

Com a urgência de uma nova evangelização, há a necessidade de despertar novos carismas e ministérios para atingirmos o objetivo geral de ação evangelizadora da Igreja no Brasil (2003-2006).

"EVANGELIZARproclamando a Boa-no vá de Jesus Cristo, caminho para a santidade, por meio do serviço, diálogo, anúncio e o testemunho de comunhão, à luz da evangélica opção pêlos pobres, promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade, formando o povo de Deus e participando da construção de uma sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo".

Evangelizar o mundo é transformá-lo pelo amor, construir o reino de Deus, um reino de justiça, de verdade, de paz, de amor: A força vocacional de uma Igreja particular está na vivência entusiasmada de sua vocação evangelizadora.
Só uma Igreja voltada para a missão de evangelizar, vivida em todos os programas, equipes e trabalhos pastorais, suscita a generosidade das vocações.

Existe uma variedade enorme de carismas e ministérios a serviço da Igreja, presentes em três tipos de vocações que chamamos de vocações específicas: vocações leigas, vocação sacerdotal e vocação consagrada (religiosa) que teremos a oportunidade de aprofundar nos próximos temas.

3. Ser comunidade orante e "encarnada"

O diálogo da fé não acontece sem um clima de oração. Falamos da evangelização como primeira condição de uma pastoral vocacional e, essa imensa tarefa, assumida pelas comunidades, grupos e organizações de Igreja, não será verdadeira sem a vida em oração.

Uma Igreja oranteéuma Igreja em constante diálogo com Deus, condição para captar a presença do Espírito de Deus na Igreja e no mundo. Aliás o próprio Jesus nos mandou que rezássemos pedindo operários para a messe.

"Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então Jesus disse aos seus discípulos: A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos/ Por isso, peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita." (Mt 9, 36-38)

Por isso uma Igreja orante é ao mesmo tempo uma Igreja encarnada, qque, sem reclamar privilégios, vive no mundo e na sociedade a sua missão profética, denunciando as injustiças e anunciando a utopia evangélica.

A Igreja, onde as vocações podem brotar, é aquela que escuta o clamor do povo, que vive em processo permanente de renovação e que reza pelas vocações.

VOCAÇÃO NA IGREJA
4. Igreja, mãe das vocações

A palavra Igreja (do grego "ekklesia") significa convocação. A Igreja, portanto, é a assembleia dos convocados,
dos chamados para missão.

"Rogo-vos pois, eu, que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados"(Ef 4,1).

Uma história
Alexandre Magno um dia estava passando em revista as suas tropas.
Perto dele estavam os seus oficiais subalternos. Um deles exclamou: "General, veja, aquele soldado, tem o nome de Alexandre, como o senhor!" O general perguntou ao oficial: "Mas ele é corajoso como eu? Luta na guerra com a mesma valentia?" O oficial, respondeu que não. Aí o grande general, olhando para o soldado, exclamou: "Soldado, ou muda de nome ou muda de vida!"

Esta história nos faz pensar no significado do nosso Batismo e nos compromissos que temos como cristãos. É isso que São Paulo quer dizer quando pede que vivamos de acordo com a vocação a que fomos chamados:

ser cristão é ser como Jesus, é viver como ele viveu, é ter as mesmas atitudes que ele teve.

São Paulo, na Carta aos Filipenses, nos ensina melhor o que é ser cristão:

"Portanto, se há um conforto em Cristo, uma consolação no amor, se existe uma comunhão de espírito, se existe ternura e compaixão, completem a minha alegria: tenham uma só aspiração, um só amor, uma só alma e um só pensamento Não façam nada por competição e por desejo de receber elogios, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo. Que cada um procure, não o próprio interesse, mas o interesse dos outros. Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo."

Textos para meditar:
- Lucas 8, 19-21
- João 10 (rebanho, redil, o Bom Pastor)
- João 15 ( a videira e os ramos)
- 1 Cor 12, 12-26 (Corpo Místico de Cristo)
- Ef 4, 1-16

celebração da Eucaristia é o centro de toda a vida cristã

celebração da Eucaristia é o centro de toda a vida cristã. Na verdade, “os demais Sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se ligam à Sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a Santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (Presbyterorum Ordinis 5; Catechismus Catholicae Ecclesiae 1324). Disto se segue que a celebração do Sacrifício do altar, como obra de Cristo sacerdote, e de seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada cuja eficácia não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.



Por sua vez, a Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em seu documento “Celebrações dominicais na ausência do Presbítero” afirma que “entre as formas celebrativas que se encontram na tradição litúrgica, é muito recomendada a celebração da Palavra de Deus”, para o alimento de fé, da comunhão e do compromisso do povo de Deus. Ela é ação litúrgica reconhecida e incentivada pelo Concílio Vaticano II: “Incentive-se a celebração sagrada da Palavra de Deus, nas vigílias das festas mais solenes, em algumas férias do Advento e da Quaresma, como também nos domingos e dias santos, sobretudo naqueles lugares onde falta o padre. Neste caso seja o diácono ou algum outro delegado pelo Bispo quem dirija a celebração” (Sacrosanctum Concilium 35,4). A propósito dessa última questão, diz-nos a Instrução Inestimabile Donum que “para dirigir as mencionadas celebrações, o fiel não-ordenado deverá ter um mandato especial do Bispo [...]” (artigo 7, §1).

Bento XVI na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, sobre a Eucaristia, fonte e ápice da Vida e da Missão da Igreja, falando sobre as Assembléias dominicais na ausência de sacerdote, assim se pronuncia: “Uma vez descoberto o significado da celebração dominical para a vida do cristão, coloca-se espontaneamente o problema das comunidades cristãs onde falta o sacerdote e, conseqüentemente, não é possível celebrar a Santa Missa no Dia do Senhor. A tal respeito, convém reconhecer que nos encontramos perante situações muito diversificadas entre si. Antes de mais nada, o Sínodo recomendou aos fiéis que fossem a uma das Igrejas da Diocese onde está garantida a presença do sacerdote, mesmo que isso lhes exija um pouco de sacrifício. Entretanto, nos casos em que se torne praticamente impossível, devido à grande distância, a participação na Eucaristia dominical, é importante que as comunidades cristãs se reúnam igualmente para louvar o Senhor e fazer memória do dia a ele dedicado. Mas isso deverá verificar-se a partir de uma conveniente instrução sobre a diferença entre a Santa Missa e as assembléias dominicais à espera de sacerdote2. A solicitude pastoral da Igreja há de exprimir-se, neste caso, vigiando que a liturgia da palavra - organizada sob a guia de um diácono ou de um responsável da comunidade a quem foi regularmente confiado esse ministério pela autoridade competente - se realize segundo um ritual específico elaborado pelas Conferências Episcopais e para tal fim aprovado por elas. Lembro que compete aos Ordinários conceder a faculdade de distribuir a comunhão nessas liturgias, ponderando atentamente a conveniência da escolha a fazer. Além disso, tudo deve ser feito de forma que tais assembléias não criem confusão quanto ao papel central do sacerdote e à dimensão sacramental na vida da Igreja. A importância da função dos leigos, a quem justamente há que agradecer a generosidade ao serviço das comunidades cristãs, jamais deve ofuscar o ministério insubstituível dos sacerdotes na vida da Igreja. Por isso, vigie-se atentamente sobre as assembléias à espera de sacerdote para que não dêem lugar a visões eclesiológicas incompatíveis com a verdade do Evangelho e a tradição da Igreja; devem antes tornar-se ocasiões privilegiadas de oração a Deus para que mande sacerdotes santos segundo o seu coração. A propósito, vale a pena recordar aquilo que escreveu o Papa João Paulo II na Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 1979, recordando o caso comovente que se verificava em certos lugares onde as pessoas, privadas de sacerdote pelo regime ditatorial, se reuniam numa igreja ou num oratório, colocavam sobre o altar a estola que ainda conservavam e recitavam as orações da liturgia eucarística até o 'momento que corresponderia à transubstanciação', e aí se detinham em silêncio, dando testemunho de quão 'ardentemente desejavam ouvir aquelas palavras que só os lábios de um sacerdote podiam eficazmente pronunciar'. Precisamente nessa perspectiva, considerando o bem incomparável que deriva do sacrifício eucarístico, peço a todos os sacerdotes uma efetiva e concreta disponibilidade para visitarem, com a maior assiduidade possível, as comunidades que estão confiadas ao seu cuidado pastoral, a fim de não ficarem demasiado tempo sem o sacramento da caridade” (75).

Aproveitando o tema e visando ainda esclarecer com uma terminologia apropriada, devemos também falar sobre o ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, como prescreve a Instrução Inestimabile Donum. O artigo 8 da referida Instrução assim se pronuncia: “Os fiéis não-ordenados, já há tempos, vêm colaborando com os ministros sagrados, em diversos âmbitos da pastoral, para que 'o dom inefável da Eucaristia seja mais profundamente conhecido e para que se participe da sua eficácia salvífica com uma intensidade cada vez maior' (Instrução Immensae Caritatis, de 29 de janeiro de 1973). Trata-se de um serviço litúrgico que responde a necessidades objetivas dos fiéis, destinado sobretudo aos enfermos e às assembléias litúrgicas nas quais são particularmente numerosos os fiéis que desejam receber a sagrada comunhão. A disciplina canônica sobre o ministro extraordinário da sagrada comunhão deve, porém, ser corretamente aplicada para não gerar confusão. Ela estabelece que ministros ordinários da sagrada comunhão são o Bispo, o presbítero e o diácono (cf. CIC, cân. 910), enquanto é ministro extraordinário o acólito instituído ou o fiel para tanto designado conforme a norma do cân. 230, § 3. Um fiel não-ordenado, se o sugerirem motivos de real necessidade, pode ser designado pelo Bispo diocesano, com o apropriado rito litúrgico de bênção, na qualidade de ministro extraordinário, para distribuir a Sagrada Comunhão também fora de celebração eucarística, ad actum vel ad tempus, ou de maneira estável. Em casos excepcionais e imprevistos, a autorização pode ser concedida ad actum pelo sacerdote que preside a celebração eucarística. Para que o ministro extraordinário, durante a celebração eucarística, possa distribuir a sagrada comunhão, é necessário ou que não estejam presentes ministros ordinários ou que estes, embora presentes, estejam realmente impedidos. Pode igualmente desempenhar o mesmo encargo quando, por causa da participação particularmente numerosa dos fiéis que desejam receber a Santa Comunhão, a celebração eucarística prolongar-se-ia excessivamente por causa da insuficiência de ministros ordinários. Este encargo é supletivo e extraordinário e deve ser exercido segundo a norma do direito. Para este fim é oportuno que o Bispo diocesano emane normas particulares que, em íntima harmonia com a legislação universal da Igreja, regulamentem o exercício de tal encargo. Deve-se prover, entre outras coisas, que o fiel designado para esse encargo seja devidamente instruído sobre a doutrina eucarística, sobre a índole do seu serviço, sobre as rubricas que deve observar para a devida reverência a tão augusto Sacramento e sobre a disciplina que regulamenta a admissão à comunhão. Para não gerar confusão, deve-se evitar e remover algumas práticas que há algum tempo foram introduzidas em algumas Igrejas particulares, como por exemplo: a) comungar pelas próprias mãos, como se fossem concelebrantes; b) associar à renovação das promessas sacerdotais, na Santa Missa Crismal da Quinta-feira Santa, também outras categorias de fiéis que renovam os votos religiosos ou recebem o mandato de ministros extraordinários da comunhão eucarística; c) o uso habitual de ministros extraordinários nas Santas Missas, estendendo arbitrariamente o conceito de 'numerosa participação'”.

Por fim, “é preciso fazer compreender que estes esclarecimentos e distinções não nascem da preocupação de defender privilégios clericais, mas da necessidade de ser obedientes à vontade de Cristo, respeitando a forma constitutiva que ele imprimiu de maneira indelével na sua Igreja”, são as palavras do servo de Deus João Paulo II.

A Igreja age e sempre agiu assim porque o seu Senhor “é sempre o mesmo ontem, hoje e pelos séculos” (Hb 13,8). Daí o adágio antigo: “lex orandi, lex credendi” (cf. CCE 1123-1124).


Diácono Everaldo Ribeiro Franco
Cerimoniário Diocesano - Uberlândia (MG).

NA ORAÇÃO DEUS SE REVELA



O Espírito Santo não entra no coração de uma pessoa perversa | Ninguém se coloca sob o sol sem se queimar; se tomar sol você vai sofrer as consequências dele. Com Deus acontece algo semelhante, ninguém se coloca na presença d’Ele sem ser beneficiado pela Sua presença, as marcas da presença do Todo-poderoso também são irreversíveis. Irreversíveis para a nossa salvação. Quando nós nos deixamos conduzir pelo Espírito Santo Ele nos dá liberdade. Nunca Nosso Senhor pensou em trazer você para perto d’Ele para limitar a sua liberdade. Se Deus Pai não quisesse que fôssemos livres, por que ele teria nos criado livres?

A nossa liberdade ficou comprometida por nossa própria culpa, porque quem peca se torna escravo do pecado. Pelo nosso pecado e pelos vícios que entraram em nossa vida, nós ficamos debilitados. Foi para sermos livres que o Pai do céu enviou Jesus. Deus Pai nos deu Cristo para nos libertar daquilo que nos amarrava.

É para que eu seja uma pessoa livre que Jesus Cristo me libertou, não para eu viver como um escravo, mas para que eu tenha liberdade! Cristo amou você, morreu em uma cruz por sua causa para que você não seja escravo do pecado. O Ressuscitado nos libertou de todo o mal, de toda a armadilha do inimigo, para que permaneçamos livres. Contudo, ninguém é livre na maldade.

Ninguém pode saber o que está em seu interior se você não abrir a boca e dizer. Quando você se põe a rezar, você esparrama o seu coração. Deus sabe separar as nossas loucuras e as nossas verdades. O Senhor sabe quando não estamos bem e o momento da oração é a hora de colocarmos todas as nossas perturbações na presença d’Ele. Quando você reza Deus Pai o refaz e o Espírito Santo o cura e o liberta. Rezar é você desnudar sua alma na presença de Deus ao se abrir a Ele. Quando voce reza, você está se pondo na presença do Altíssimo e assim será curado.

Quando você tira a roupa diante do espelho você vê o que quer e o que não quer. Na hora em que estamos rezando caem as nossas “roupas”, espiritualmente falando e, do mesmo modo, vemos aquilo que queremos e o que não queremos. Tudo que eu faço de mau volta para mim no momento da oração. As feridas que nós ignoramos, na oração, não conseguimos ignorá-las, porque nesse momento Deus nos revela uma por uma para nos curar. No momento em que o Senhor nos mostra quem nós somos, Ele também mostra quem Ele é.

No momento em que você conhece ao Criador você conhece a si mesmo. Por isso que rezar não é coisa para qualquer um. Na oração, Deus se revela a mim, mas Ele também me revela a mim mesmo. Se Ele me revela uma coisa que não está boa, é porque é preciso consertá-la. Ninguém conhece ao Todo-poderoso sem antes entrar no próprio coração.

Na oração nós aprendemos a ouvir ao Senhor. Não existe ninguém que tendo rezado Deus não o tenha respondido. E se Ele não o faz diretamente, Ele vai fazê-lo por meio de uma pessoa ou de um fato. Mas que Ele responde Ele responde. Nós precisamos aprender a ouvi-Lo na oração, para conhecermos os planos que Ele tem para nossa vida. Ele projetou um caminho de felicidade para nós.

O Espírito Santo não entra no coração de uma pessoa perversa. O Paráclito não habita em um corpo que está sendo usado para o pecado. Nós podemos ter muito conhecimento, conhecimento você adquire com estudo, mas sabedoria quem dá é Deus. Uma pessoa perversa pode ter qualquer coisa, menos sabedoria.

O que é errado é errado hoje, foi errado ontem e será errado sempre! Não é porque a modernidade está aí que o que era errado deixou de sê-lo. Talvez o que você precise hoje seja abrir mão desta pendência que está dentro de você. Quem quiser receber de Deus uma resposta, quem quiser conhecer a Deus e a si mesmo precisará lutar pela sua pureza. O maligno tem pavor de gente que vive a purez! Muitas graças lhe são dadas porque o Espírito Santo se achega ao homem que vive a pureza.

O Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo tem poder de nos purificar. Pela força da santa cruz todo o mal é vencido! Queira viver a pureza.

Márcio Mendes
marciomendes@cancaonova.com

Confissão de um ex-Abortista

Confissão de um ex-Abortista

Eu sou pessoalmente responsável por 75.000 abortos.

Isto legitimiza minhas credenciais para falar com alguma autoridade sobre este assunto.

Eu fui um dos fundadores da NARAL (National Association for the Repeal of the Abortion Laws) nos EUA, em 1968.

Nesta época, uma confiável pesquisa de opinião descobriu que a maioria dos americanos eram contra o aborto permissivo.

Em cinco anos nós tínhamos convencido a Suprema Corte a promulgar a decisão que legalizou o aborto nos EUA em 1973 e tornou legal o abortamento até o momento anterior ao nascimento. Como fizemos isto?

É importante entender as táticas utilizadas porque as mesmas têm sido usadas em todo o Ocidente com algumas pequenas mudanças, sempre com o intuito de mudar leis anti-aborto

A 1ª TÁTICA ERA GANHAR A SIMPATIA DA MÍDIA

Nós persuadimos os meios de comunicação de que a causa de permitir o aborto era uma causa liberal, esclarecida, sofisticada.

Sabendo que uma pesquisa confiável havia sido feita, o que muito nos prejudicaria, nós simplesmente fabricamos resultados de pesquisas fictícias.

Anunciamos aos meios de comunicação que havíamos feito pesquisas e que 60% dos americanos eram favoráveis à permissibilidade do aborto. Esta é a tática da mentira bem fundamentada. Poucas pessoas gostam de fazer parte da minoria.

Nós adquirimos muitos simpatizantes para divulgarmos nosso programa de permissibilidade do aborto ao fabricarmos o número de abortos ilegais feitos no EUA anualmente.

Enquanto este número era de aproximadamente 100.000, nós dizíamos repetidamente aos meios de comunicação que o mesmo era de 1.000.000.

A repetição de uma grande mentira várias vezes convence o público.

O número de mulheres morrendo em conseqüência de abortos ilegais era em torno de 250, anualmente.

O número que constantemente dávamos aos meios de comunicação era 10.000. Estes números falsos criaram raízes nas consciências dos americanos, convencendo muitos da necessidade de revogação da lei contra o aborto.

Um outro mito que demos ao público através da mídia era que a legalização do aborto seria a única forma de tornar legais os abortos que então eram feitos ilegalmente.

O aborto está sendo atualmente utilizado como o principal método de controle de natalidade nos EUA e o número de abortos feitos anualmente cresceu em 1500% desde a legalização.

A 2ª TÁTICA ERA ATACAR O CATOLICISMO

Nós sistematicamente difamamos a Igreja Católica e suas “idéias socialmente retrógradas” e colocamos a hierarquia católica como o vilão que se opunha ao aborto.

Esta música foi tocada incessantemente. Nós divulgávamos à mídia mentiras tais como: “todos sabemos que a oposição ao aborto vem da hierarquia e não da maioria dos Católicos” e “pesquisas comprovam que a maioria dos Católicos quer uma reforma na lei contra o aborto”.

E a mídia martelava tudo isto sobre os americanos, persuadindo-os que qualquer um que se opusesse ao aborto permissivo deveria estar sobre a influência da hierarquia Católica e que Católicos favoráveis ao aborto são esclarecidos e progressistas.

Uma inferência desta tática foi que não havia nenhum grupo não-Católico oposto ao aborto. O fato de que outras religiões Cristãs e não-Cristãs eram (e ainda são) monoliticamente opostas ao aborto foi constantemente suprimida, assim como as opiniões de ateístas pró-vida.

A 3ª TÁTICA ERA DENEGRIR E SUPRIMIR TODA EVIDÊNCIA DE QUE A VIDA SE INICIA NA CONCEPÇÃO

Muito me perguntam o que me fez mudar de pensamento.

Como fui transformado de um proeminente abortista a advogado pró-vida?

Em 1973 eu me tornei Diretor de Obstetrícia de um grande hospital na cidade de New York e tive que iniciar uma unidade de pesquisa pré-natal, apenas como início de uma nova tecnologia que usamos agora para estudar o feto no útero.

Uma tática pró-aborto favorita é insistir que a definição de quando a vida inicia é impossível; que esta questão é uma questão teológica, moral ou filosófica, nada científica.

A Fetologia tornou inegável a evidência de que a vida se inicia na concepção e requer toda proteção e cuidado que qualquer em de nós necessita.

Por que, vocês podem perguntar, alguns médicos americanos, cientes das descobertas da Fetologia, desacreditam a si mesmos fazendo abortos? Simples aritmética: a US$ 300,00 cada, 1,55 milhões de abortos significam uma indústria de US$ 500.000.000,00 anuais, dos quais a maior parte vai para o bolso do médico que faz o aborto.

É claro que a permissibilidade do aborto é claramente a destruição do que é, inegavelmente, uma vida humana.

É um inadmissível ato de violência. Todos devem reconhecer que uma gravidez não planejada é um dilema muito difícil. Mas, procurar por sua solução num deliberado ato de destruição é desprezar a vasta quantidade de recursos do gênio humano e abandonar o bem-estar da população a uma clássica resposta utilitarista aos problemas sociais.

COMO CIENTISTA EU SEI AGORA – NÃO APENAS ACREDITO – QUE A VIDA HUMANA SE INICIA NA CONCEPÇÃO

Embora eu não seja um religioso praticante, eu acredito de todo o meu coração que há uma Divindade que nos leva a desejar um fim completo a este infinitamente triste e vergonhoso crime contra a humanidade.

Dr. Bernard Nathanson desde então converteu-se ao Catolicismo, sendo batizado em 1996.


FONTE: http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/

AS NOVAS COMUNIDADES



As comunidades novas baseiam-se em novas inspirações adaptadas dos institutos de Vida Consagrada da Igreja Católica, tendo como grande diferencial a Vida Comunitária ser formada por Sacerdotes e leigos, homens e mulheres em uma mesma Comunidade devidamente dividida mais trabalhando junto em prol da Evangelização ou Promoção da Dignidade Humana.

Tais formas de vida comunitária em vista da Evangelização existem desde o fim do século XX, se expandindo pelo mundo todo em diversas novas comunidades, e ainda hoje aguardam um futuro enquadramento canônico enquanto são muito bem vistos pela hierarquia católica, sob a qual existem em esforçado serviço e auxílio. É formada por leigos e padres engajados como um passo a mais em seus engajados projetos de evangelização diocesanos oriundos comumente da Renovação Carismática Católica.

Devido a essa sua origem também são conhecidas por Comunidades Carismáticas, e teve seu apogeu na convocação feita por sua Santidade o Papa João Paulo II em 1998, no Vaticano onde reunindo-se com milhares de Comunidades do Mundo Inteiro reconheceu sua existência e lhes deu o grande impulso motivador na Igreja

"IGREJA, COMUNHÃO E MISSÃO"

"IGREJA, COMUNHÃO E MISSÃO"

APRESENTAÇÃO
"Igreja, Comunhão e Missão" é o título do tema central da 26.a Assembléia Geral da Conferéncia Nacional dos Bispos do Brasil. Foi escolhido pelo Conselho Permanente. Em seguida, preparou-se o tema com a colaboração de todos os bispos e outros organismos de Igreja.
Na Assembléia Geral foi estudado e discutido em grupos de trabalho e sessões plenárias conforme o Regimento.
Na votaçâo final alcançou a aprovação por 236 votos, dentre os 246 participantes.
É, com alegria, que entregamos às Igrejas par­tlculares este documento para que Incentive e oriente a reflexão e açâo pastoral dos fiéis e possa ser ana­lisado, aprofundado e enriquecido especialmente nas questões concretas da 2." parte, mais ligadas à vida quotidiana dos cristãos leigos.
Lembramos a este propósito, o proveito pastoral alcançado pelo estudo feito"pelas Igrejas particula" es sobre os documentos da Catequese Renovada e "Por uma nova ordem constitucional ".
O resultado destas contribuiçôes há de permitir a elaboração futura de outros subsídios.
Confiamos a Deus o fruto pastoral do documen­to de nossa 26.° Assembléia, na certeza de que será
recebido, com renovado empenho, pelas Igrejas par­ticulares.
j' Luciano Mendes de Almeida Presidente da CNBB
t Paulo Andrade Ponte Více-Presidente da CNBB j' Antônio Celso de Oueiroz
Secretário Geral da CNBB

IGREJA: COMUNHÃO E MISSÃO

INTRODUÇÃO

1. SENTIDO DO DOCUMENTO

1. Reunidos na 26.a Assembléia Geral da Conferén­cia Nacional dos Bispos do Brasil [CNBB), nós, os Bispos da Igreja Católica no Brasil, escolhemos co­mo tema principal da nossa reflexão a Comunhão e a Missâo da Igreja no atual momento histórico. Consi­deramos os fundamentos da missão no próprio ser da Igreja-Comunhão, buscando uma Comunhão Mis­sionária. Elaboramos orientações práticas que daí de­correm para a vida e a atuação da pastoral da Igreja, na tarefa de anunciar Jesus Cristo a todos os povos, particularmente, no mundo do trabalho, da política e da cultura.

2. Escolhemos este tema abrangente na convicção de que ele nos ajudará a realizar melhor a Missâo da Igreja em nosso país e contribuirá para o fortaleci­mento da comunhão eclesial e a renovação de nossa fidelidade Aquele que nos chamou e nos reuniu na mesma unidade que é do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

3. Dirigimo-nos a todos os irmãos e irmãs, membros das comunidades eclesiais, que procuram escutar os apelos de Deus e compreender a vocação da Igreja e sua missão em nosso país. Oferecemos nossas re­
flexões, em primeiro lugar aos nossos colaboradores, presbíteros, diáconos, religiosos e, de modo especial, aos cristãos leigos, com os quais queremos aprofun­dar a co-responsabilìdade na formação do povo de Deus e na ação da Igreja no mundo prolongando, as­sim, a reflexão sobre o tema do último Sínodo dos Bisposl e preparando uma nova etapa de conscien­tização que deverá ser enrìquecida com o documen­to que esperamos receber do Santo Padre.

4. Em espírito fraterno, queremos partilhar nossas reflexões com os irmãos de outras Igrejas cristãs, para que, na medida em que nos seja possível, che­guemos a exercer, em comum, a nossa missão. Di­rigimo-nos a todas as pessoas de boa vontade que lutam pela libertaçâo integral do homem e buscam participar da construção de uma sociedade justa e fraterna.

5. Este texto deve ser lido no contexto de outras reflexões do Magistério da Igreja Universal e da Amérìca Latina. Especialmente consideramos este texto como desdobramento das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil2.

2. DESAFIOS A MISSÃO DA IGREJA

6. Voltando-nos para o tema " Igreja: Comunhão e Missão", não nos afastamos dos problemas mais ur­gentes do país, aos quais dedicamos a II parte deste documento. Temos, pois certeza de que a compreen­são da missão nos levará a enfrentar melhor seus desafios.

7. 0 mundo em que vivemos e, particularmente, neste momento, a sociedade brasileira, precisam de uma atuação evangélica dos cristãos, que contribua para a recuperação dos valores éticos e relígiosos fundamentais, sem os quais nenhum plano econômi­co, nenhuma política, nenhuma Constituição terá for­ças para garantir ao povo um destino digno3.

8. No plano mundial, o trágico contraste entre as condìçôes de vida de grande parte da humanidade, condenada à fome e à miséria, e o desenvolvimento econômico e técnico alcançado pelas nações privi­legiadas, mostra que estamos diante de um grande desafio político e ético: construir uma nova socie­dade política internacional, edificar uma sociedade justa em nível mundial. Sem isto, a própria unidade e desenvolvimento digno do gênero humano estão ameaçados4.

9. No plano nacional, como apontamos em muitos pronunciamentos, estamos diante de desafios igual­mente graves. Também no Brasil, o desenvolvímento técnico e econõmico não conseguiu vencer a miséria e garantir condições de vida digna à maior parte de sua população. Antes, frustrou as expectativas e tor­nou mais dolorosa e grave a exploração e marginali­zação da maioria.

10. O mesmo desafio se apresenta no plano políti­co. Ainda não se conseguiu integrar no exercício efe­tivo da cidadania a grande parcela de cidadâos que estão à margem do processo de participação demo­crática, embora tenham sido criados novos instrumen­tos legais e polítìcos para viabilizar a participação popular.

11. Nos últimos anos, foram despertadas na cons­ciência nacional grandes esperanças de reformas es­truturais profundas que correspondessem às neces­sidades básicas da população. Até hoje, essas expec­tativas vêm sendo indefinidamente adiadas.

12. Sem dúvida, as dificuldades econômicas e so­ciais se tornaram dramáticas em decorrência da pe­sada dívida externa. Mas não é apenas a dependên­cia econõmica que marca a nossa sociedade. Também no plano cultural, vêm se realizando mudanças pro­fundas, decorrentes - em grande parte - das trans­formações econômicas. Assistimos a uma urbaniza­ção desorganizada e a uma modernização elitista, di­rigida através da criação e manipulação de necessi­dades próprias do modelo exportador e consumiste. Esta situação tende a acentuar a massificação anôni­ma das pessoas, desenraizadas de seu ambiente de origem, a desvalorização das tradições e dos valo­res éticos, cívicos e religiosos.

13. Todos esses fatos estâo na origem de manifes­tações sociais negativas que se configuram na sen­saçâo de frustraçâo da juventude, na desagregaçâo familiar sem precedentes, nas facilidades abertas à indústria da droga e da pornografia. É particularmen­te preocupante, no Brasil, a corrupçâo e imoralidade no trato das coisas públicas e a freqüente concep­ção do poder público como meio de favorecer inte­resses próprios ou de grupos e não como instru­mento de promoçâo do bem comum.

14. A todos esses desafios acrescenta-se, hoje, o fenõmeno do esvaziamento da formação e da prática religiosa de boa parte da população católica, particu­larmente nas áreas urbanas; o fenõmeno da multipli­cação de novos movimentos e seitas religiosas autõ­nomas; a carência de sacerdotes, apesar do recente florescimento de vocações sacerdotais, e as deficiên­cias na formação teológica dos agentes de pastoral; a falta de um sério compromisso da maioria dos católicos com a vivência da fé na vida e, inclusive, a falta de um compromisso efetivo na sustentação da própria Igreja.

15. Preocupa-nos a tendência a identificar o Reino de Deus com as simples mudanças sociais que po­dem ser conquistadas na luta popular. Como também, de um lado, a facilìdade com que alguns agentes de pastoral apelam para a análise marxista como sendo o único instrumento de compreensão da realidades e, do outro, a ausência de qualquer compromisso de transformação social por parte de grupos, movimen­tos ou organismos pastoraise.

16. Longe de se apresentar como possuindo a cha­ve de soluções fáceìs para problemas tão comple­xos, a Igreja fala com toda a ousadia, porque acredi­ta na mensagem de Jesus Cristo e na presença do mesmo Cristo e de seu Espírito entre nós. Mas, ao mesmo tempo, deve falar com plena consciência de suas limitações e de sua condiçâo de comunidade composta de pessoas pobres e pecadoras. Quando di­zemos, com o Concílio Vaticano II, que a Igreja é san­ta e pecadora7, estamos afìrmando, também, nossos próprios pecados e deficiências como pessoas e co­
mo grupos de bispos, padres, religiosos e leigos, as­sim como reconhecemos as limitações da Igreja en­quanto organização no meio da sociedade.

17. Ao analisar a realidade eclesial, parece-nos ne­cessário focalizar alguns aspectos que constituem, não só motivo de tensâo e sofrimento, mas chegam a ser reais obstáculos ao desempenho da missão da Igreja.

18. Temos que reconhecer que há, hoje, como sempre houve, modos de pensar diferentes e diversi­dade de posições dentro da mesma Igreja. Entretan­to, nem sempre é claro o limite entre uma válida di­versidade de opiniões e práticas pastorais e a ruptu­ra da comunhão eclesial.

19. Não é fácil assumir a existéncia de tais diver­géncias, nem conviver em meio às tensões e confli­tos que delas decorrem. Ainda hoje, é necessário repetir aquilo que afirmávamos em nossa 23.e Assem­bléia Geral: "Todos precisamos aprender a trilhar o caminho da UNIDADE, que não é o mesmo que unì­formidade "8.

20. O próprio dinamismo da Igreja gera tensões, que não podem ser suprimidas com a eliminação de um dos palas.

21 . Há, muitas vezes, na Igreja, tensão entre comu­nid.ade e missâo. A comunidade é tentada a recolher­-se em si mesma, renunciando à missão, a abertura aos outros, ou reduzindo-a a segundo plano. No ex­tremo oposto, muitos temem que a comunidade ve­
nha a dissolver-se na missão, perdendo sua identi­dade. 0 desafio consiste em se formar uma comu­nidade missionária, onde a comunidade sustente a missão e a missão dinamize permanentemente a co­munidade.

22. Há na Igreja, sobretudo em decorréncia de op­ções de caráter sociológico ou teológico, uma divi­são de tarefas que acaba se enrijecendo e mal ser­vindo à sua própria finalidade. É, por exemplo, um certo modo de opor clero e laicato, pelo qual o lai­cato acaba perdendo a sua condição de sujeito da missão e deixando de assumir sua responsabilidade na evangelízação. De outro lado, os pastores, às ve­zes, centralizam ou monopolizam o ministério, difi­cultando, assìm, a construção de uma comunìdade to­da ministerial. O desafio é encontrar uma comuni­dade toca missionária e harmoniosamente unida pe­lo exercício adequado da líderança e uma sábia par­tilha das responsabilidades.

23. Há, ainda, tensões e dificuldades de entendi­mento, por parte de pessoas e grupos, igualmente movidos pelo sincero desejo de servìr a Igreja, mas que nascem de preocupações e perspectìvas diferen­tes, que deveriam ser complementares, mas podem se tornar concorrentes ou conflitivas. É o caso, por exemplo, das relações entre as atividades pastorais e missionárias das comunidades eclesiais ligadas ao território (comunidades de base, paróquias, dioceses) e as atividades ou inicíativas pastorais comuns a "se­tores" ou aspectos da vida social (pastoral da terra, pastoral operária, pastoral universitária, pastoral da escola ou da cultura, etc.). O mesmo diga-se de associações e movimentos, especíalmente dos que vão além da realidade diocesana e se organizam em nível nacional ou transnacional.

24. A situação torna-se mais grave quando um de­terminado grupo, movimento ou tendência pretende monopolizar a pastoral de maneíra excludente, sem respeitar a pluralidade. E acaba tornando-se irrever­sível ou insolúvel, quando uma ou as duas partes ce­dem à tentação de marginalizar ou até condenar o adversário. Neste caso, o diálogo torna-se impossível e se compromete a credibilidade da missão.

25. Em síntese, parece-nos que essas tensões e con­flitos nascem tanto da própria evoluçâo histórica e da complexídade das situações em que se desenvolve a missão quanto da condição de pecado e imperfei­ção humana, da qual nâo se subtraì nem o cristâo, como indivíduo [bispo, presbítero, diácono, religioso ou leigo), nem a Igreja, em sua trajetória humana. 26. Os muitos desafios internos e externos, as situa­ções novas e inéditas, as contestações que a ação da Igreja sofre, às vezes, e a própria necessidade de o cristão artícular melhor seu engajamento, tudo isso exige um aprofundamento sobre a missão da Igreja à luz de sua histôria e de sua fonte.

PARTE I COMUNHÃO E MISSÃO

1. A MISSÃO REVELA A COMUNHÃO

27. Para compreender a missão da Igreja, devemos nos voltar para a história da revelação de Deus, co­mo fez o Concílio Vaticano III. É na história que Deus se revela a si mesmo e dialoga com os homens, "co­mo a amigos"2, "para os convidar à comunhão con­sigo e nela os receber"3.

28. A Bíblia registra a experìência de Deus que o povo israelita viveu: experiência do "Deus Conosco", que age na história dos homens, que ìntervém na economia, na política, nas relações sociais, que ma­nífesta uma partícular atençâo aos pobres, oprímídos e esquecìdos. Este mesmo Deus, que ama seu povo com um amor "ciumento", impede que Israel se feche em si mesmo e no falso orgulho de ser o "eleito". Israel descobre, progressivamente, que é chamado a uma missão: ser "luz das nações", testemunha do amor universal e miserìcordioso de Deus entre os povos, mesmo e sobretudo, na hora da servídão e do sofrimento4.

29. A "condescendência" de Deus, a sua aproxíma­ção da humanidade, chega à sua expressão plena e insuperável na encarnaçâo do Fílho de Deus, em Je­sus de Nazaré. Ele realiza em sì mesmo a perfeita comunhão da humanidade com Deus. Revela, em sua
humanidade, medíante suas ações e palavras, Deus que é Pai, Amor, Comunhão5. Anuncia a chegada do "Reino de Deus" como perdão e misericórdia que se estende a todos os homens, também aos impuros e pecadores, e cuja presença é manifesta por sinais bem concretos que repercutem na ordem social de seu tempo [acolher o leproso, curar os doentes, co­mer com os pecadores . . . )°.

30. O gesto supremo da doação de Jesus, em que se manifesta seu amor ao Pai e o amor do Pai pelos homens, é a entrega da vida na cruz'. A ela Deus res­ponde com a ressurreição e glorificaçâo de seu Fi­Iho Jesuss. Por isso Jesus, exaltado como Messias (Cristo) e Senhor, pode enviar o Espírito Santo. O Espírito Santo faz os discípulos de Jesus compreen­derem plenamente o sentido de sua vida e mensa­gem e, ao mesmo tempo, a unidade "do Pai e do Filho e do Espírito Santo"s.

31. Impulsionada pelo Espírito de Cristo, a comu­nidade dos discípulos de Jesus - a "Igreja de Deus", o povo da nova Aliança - se dirige a todas as na­ções, para inverter Babel e anunciar a "Boa notícia" do Reino de Deus, o Evangelhol°. O mandato de Je­sus não é apenas de anunciar ou ensinar. Ele espera que seus discípulos suscitem outros discípulos e ir­mãos que entrem na comunhâo fraterna com os men­sageiros do Evangelholl.

32. O Evangelho exige uma conversão, uma mudan­çal2, não apenas na mente e no coração das pessoas, mas em suas atitudes, relações, instituições, estru­turas sociais. A fé exige adesâo das pessoas, mas
gera ao mesmo tempo uma nova realidade socìal e cultural, tende a transformar a sociedade e a cultura. A novidade da fé não é apenas acolhìda com fervor e entusiasmol3; ela encontra também dúvidas, resis­tência, hostilidadel4, principalmente porque exige uma transformação radical.

33. A história da missão da Igreja é a história do encontro entre o anúncio do Evangelho e a acolhida que pessoas, grupos, sociedades e culturas Ihe ofe­recem. O encontro pode ser pacífiço; outras vezes se torna choque, conflito, rejeição, perseguição. Muí­tas vezes surgem atitudes contraditórias: a mensa­gem evangélìca dividel°. O encontro pode tornar-se mais difícil porque os mensageìros do Evangelho, es­quecendo o exemplo do Mestre, usam da violência para impor uma mensagem de paz, ou se tornam con­tra-testemunho, inclusive pela sua própria desunião e o desentendimento acerca dos caminhos da própria missâols.

34. A história da missão coincìde substancialmente com a história da Igreja. Está marcada pela dedica­ção heróica de santos, pela fidelidade perseverante de muitos fiéis. Está também marcada pela intransi­gência e a imposição em nome da verdade ou, às ve­zes, por uma deplorável perda de identidade dos dis­cípulos de Cristo, que abandonam a autêntìca profis­são de fé, cedendo aos compromissos com a men­talidade mundana.

35. Apesar das infidelidades e fraquezas, pode-se reconhecer na história da missão trés grandes atitu­des que a caracterizam e que continuam como ideais para o cristão:

36. - a atitude do diálogo. O próprio Deus é o primeiro a se abrir ao dìálogo com a humanidade, à qual dírige a sua pa(avra através dos profetas e prin­cipalmente da Palavra por excelência o Verbo encar­nado. Jesus Crìsto também utiliza o diálogo para co­municar e explicitar a revelação7. A Igreja encontra no díá(ogo o primeiro passo de sua atividade missio­nária: "Os discípulos (de Cristo), profundamente im­pregnados de seu Espírìto, conheçam seus concìda­dãos e relacionem-se com eles, para que esses medi­ante um diálogo cheio de sincerìdade e pacìêncìa ve­nham a conhecer quantas riquezas o munificente Deus prodigalizou aos povos"18. Neste diálogo, o cristâo não apenas anuncia a Boa Nova e comunica a sua fé, mas também aprende a descobrir nos outros as ri­quezas da experíêncía religiosa que Deus suscìtou.

37. - a atitude da crítica-profética. Na medida em que o diálogo tiver propiciado o mútuo conhecimen­to, torna-se possível e necessárìo um segundo mo­mento: o do exame e do juízo crítìco. Chega a hora em que se ímpôe examinar e discerniri9. É preciso não apenas anunciar o bem e reconhecer o que é comum: deve-se também denunciar o mal, o erro, o que é incompatível com o plano de Deus. Como os antígos profetas bíblicos, Jesus não deìxou de denun­cìar o que Deus não podia aprovar, e o fez com grande vigorz°. Também o evangelizador é chamado, em muitas situações, ao exercício humilde e corajo­so da crítica profética. Não apenas as sociedades pagãs ou secularizadas precisam dela. Também so­ciedades que se querem "cristâs", exigem o dìscer­nimento, que separa joio e trígo. Até hoje, o nosso Continente está marcado por conflitos entre missionários que anunciam o Evangelho e outros crìstâos que, seduzidos pelo espírito de conquista ou a cobi­ça da riqueza, perderam o sentido autêntico da ética crìstãzl. Entretanto, também os missionários, como toda a Igreja, devem submeter-se permanentemente ao juízo da Palavra de Deus.

38. - o testemunho de fida até o martírio. Como o prbprio Jesus, cuja voz profética foi cortada muito cedo pelas autoridades de Jerusalém, o míssionário pode ser chamado à forma suprema do testemunho, que é o martírio, a entrega da própria vida. Ela é a prova maíor da fé do mártir e, por isso, também a atitude missionária mais eficaz. O sangue é semen­te de crístãos22. Também na América Latina e em nos­so país, o testemunho cotidiano, na perseverança do dia a día até mesmo o martírio continua sendo uma presença e um dom, que enriquece e fortifica o es­pírito missionárío da Igreja e sua fidelidade ao Evan­gelho e à causa dos injustiçados.

39. Na histórìa recente, a consciência missíonária da Igreja está se renovando profundamente. A missãe não é pensada unicamente como missâo "ad gentes", limitada a áreas geográfícas menos penetradas pela evangelização. Este aspecto da missão se revigora e se completa com a descoberta de que todo país é "terra de missão". Cresce a convicção de que a mis­são é condição essencial e permanente da Igreja, em todo tempo e lugar. Ela não é apenas tarefa de alguns institutos específicos ou da hierarquía ecle­síástica, mas responsabilidade e dever de todo o po­vo de Deus, de toda Igreja particular, de todo crís­tâo.

40. Ao mesmo tempo, cresceu a consciência de que a Igreja é chamada a partilhar solídaríamente das alegrias e esperanças, trístezas e angústías dos ho­mens. Ela explicíta hoje maís claramente que "não se encontra nada verdadeíramente humano que não Ihe ressoe no coração"z3. 0 compromisso com a pro­moção da paz e da justiça, afirmado pelo Concïlío Vaticano II na "Gaudium et Spes", foi reafírmado vigorosamente pela II Conferência Episcopal Latino­-Americana em Medellín (1968) e pelo Sínodo dos Bispos de 197124. O Papa Paulo VI, na "Evangelii Nun­tiandi" (1975), ressaltou os laços profundos que unem evangelização e libertação, como também o fez Pue­blaz5.

41 . O papa João Paulo II nos lembrou recentemen­te a mesma coìsa: missão da Igreja ê "evangelízar, isto é, prestar ao mundo o ministério da salvação, mediante o 'dialogus salutis' (diálogo da salvação) ìnstaurado com ele (...) Essencialmente religioso, porque nasce de uma ìniciativa de Deus e se finali­za no absoluto de Deus, o `ministeríum salutis' (mi­nistério da salvação) é ao mesmo tempo serviço do homem - pessoa e sociedade - às suas necessida­des espirituais e temporais, aos seus direitos funda­
" mentais, à sua convivência humana e cìvil 2°.

42. Cresce assim na Igreja a consciéncia dos de­safios que ela deve enfrentar para realizar a sua mis­são. Cresce também a convicção de que a Igreja se­rá tanto mais capaz de realizá-Ia e de estar aberta às expectativas do mundo, quanto mais se voltar pa­ra a origem e fonte da sua missão.
2. 0 MISTÉRIO DA COMUNHÃO, ORIGEM DA MISSÃO

43. A missão da Igreja tem sua origem e sua razão de ser no próprìo mistério de Deus e desígnio do Pai de chamar a humanidade a participar da comu­nhão com E1e27.

44. Através da missão do Filho e do Espírito, reve­la-se aos homens o amor de Deus-Pai e nos é dado penetrar, de algum modo, no mistério da comunhão trìnitária. Ele se nos revela como comunhão de um mesmo ser na alteridade de três pessoas. As pes­soas divinas existem na mesma natureza como rela­ções de uma para as outras. Em Deus, ser pessoa é ser para as outras numa doação mútua. O dar e o receber, o gerar e o ser gerado não implicam em diminuição de uma pessoa frente às outras. Plena comunhão no mesmo ser, sem domínação, sem ab­sorção, sem subordinação. Tudo entre elas é comum. Por isso, Jesus diz ao Paì "tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu"28. E referindo-se ao Espírito Santo, afirma: "Tudo o que o Pai tem é meu; por isso disse: Ele (o Espírito) recebe do que é meu e vo-Io anunciará "2s.

45. O mistério trinitário suscita antes de tudo, a adoração. Toda a oração da liturgïa se dïrige a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo. Especialmente a Eucaristia expressa e celebra, da forma mais plena, a fé trinítáría, reuníndo em comunhâo fraterna os cristãos, já ínserídos pelo batísmo na Trïndade San­ta, que neles veío habítars°.

46. A comunhâo trinítáría ílumina também o senti­do da história e da realidade cósmica. Nessa luz, to­da a crìação e toda a humanidade aparecem chama­das a um destino de comunhão e ansiosas por ele. "A comunhão que se há de construir entre os homens abrange-Ihes todo o ser desde as raízes do amor, e há de se manifestar em toda a sua vida, até na sua dimensão econômica, socíal e política. Produzida pe­io Pai, o Filho e Espíríto é a comunicação de sua própria comunhão trinitária"31. "Esta é a comunhão que as multidões de nosso continente procuram com ansia. . . "3 ,

47. Nesta perspectiva, destaca-se também o sen­tido da Igreja, como sacramento, "sinal" e "instru­mento" de comunhão33. Ela aponta à humanidade o caminho de Cristo como aquele que leva à comunhão com o Pai e à realização da paz e unídade, pela qual a humanidade anseia. Por isso a participaçâo na co­munhão trinitária constitui o cerne da missão evan­gelizadora da Igreja34.

48. A comunhão não apenas ilumina o sentido da história humana e da missão da Igreja. Diante da profunda desigualdade social que caracteriza nosso continente, gerando marginalização e díscríminação, Puebla convoca os cristâos para uma "evangelização libertadora" que transforme a América Latina pelos caminhos da "comunhão e participação", cujas exí­gências aponta de forma ríquíssima35.

49. "Cada comunidade eclesial - conclui o docu­mento de Puebla - deveria esforçar-se por consti­tuir um exemplo de modo de convivência onde con­
sigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organizaçâo e estrutu­ras de participação, capazes de abrir caminhos para um tipo mais humano de sociedade, e, sobretudo, on­de inequivocamente se manifeste que, sem uma ra­dical comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatal­mente voltando-se contra o próprio homem "36.

50. A comunhão é a origem da missão. A comu­nhão é igualmente seu termo, seu objetivo. Mas tam­bém é, de algum modo, o próprio caminho e a con­dição da missão. Já o lembrava aos primeiros cris­tãos o evangelista João com as palavras da Oração de Jesus: "Ove todos sejam um. Como tu, Pai, es­tás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia"3'.

3. A MISSÃO A SERVIÇO DA COMUNHAO

51 . O desígnio de Deus, de levar os homens à co­munhão plena entre si e à participação na própria comunhão divina, ainda não está plenamente reali­zado. A Igreja está a serviço dessa realização; a missão continua. A Igreja ainda se encontra a cami­nho, até que Deus seja tudo em todos38 e se afirme plenamente o seu Reino.

52. Nesta caminhada, a Igreja tem algumas referên­cias e orientações, que provêm da sua fonte e da sua história. Brevemente assinalamos algumas capa­zes de imprimir um particular impulso evangélico em nossa ação pastoral e missionária.

53. A primeira e fundamental referência é o pró­prio Cristo. Com a graça do Espírito, a Igreja apostó­lica compreendeu plenamente que Jesus de Nazaré é Filho de Deus, o Verbo encarnado. Já o apóstolo Paulo apontava o sentido da Encarnação e suas im­plicações para a existência da Igreja. Cristo é aquele que "sendo de condìção divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se assumindo a condiçâo de servo ( . . . ), tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz"3a. Ele "se fez pobre, embora fosse rìco"4°. O Concílio Vaticano II reafirmou que o camìnho da Igreja não pode ser diferente. "Assim como Cristo consumou a obra da redençâo na po­breza e na perseguìção, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho (...) A Igreja não foi ins­tituída para buscar a glória terrestre, mas para pro­clamar, também pelo seu próprio exemplo, a humìl­dade e a abnegação"41. A Igreja Latino-americana
, sem excluir ninguém do convite para participar do Reino de Deus, prolonga a preocupação do Concílio pela evangelização dos pobres e sofredores, em que reconhece o rosto de Cristo, ao assumir uma "clara e profética opção preferencial e solidária pelos po­bres"4z. Todos os cristãos são chamados ao amor preferencial pelos pobres43.

54. Ao lado de Jesus, a figura de Maria, sua Mãe, também é modelo para a Igreja e para cada um dos cristãos. Seguindo o exemplo do Concílio Vaticano II e da Encíclica "Redemptoris Mater" do Papa João Paulo II, contemplamos neste Ano Mariano a figura da Santíssima Virgem Maria, peregrina da fé, como Mãe e modelo da Igreja, "Estrela da evangelízação". "É para ela que a Igreja deve olhar para compreender, na sua integralidade, o sentido de sua missão'44. No coração de Maria, na profundidade da sua fé, expres­sa no 'Magnifícat', a Igreja renova a certeza de que nâo se pode separar a verdade a respeito de Deus que salva, de Deus que é fonte de toda dádiva, da ma­nifestação do seu amor preferencial pelos pobres e pelos humildes45.

55. Maria avìva na Igreja a consciência de sua con­dição de peregrina, que caminha pela histórìa dos homens em direção ao Reino de Deus. O povo de Deus vive, de fato, na esperança de " nova terra e novo céu", que supere a figura deste mundo defor­mado pelo pecado, vença a morte e liberte a crìação4s. "Contudo, a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aper­feiçoamento desta terra. Nela cresce o corpo da no­va família humana que já pode apresentar algum es­boço do novo século. Por isso, ainda que o progres­so terreno deva ser cuidadosamente distinguido do aumento do Reino de Cristo, contudo é de grande in­teresse para o Reino de Deus, na medida em que po­de contribuir para organizar a sociedade humana"47.

56. Esta afirmação do Concílio Vaticano II tem dois aspectos. De um lado, ressalta que a Igreja é "germe e início" do Reino de Deus48. Ela torna visível e his­tórica a realidade desse Reino na sua maneira de
ser e agir. Há uma profunda unidade entre o ser e c agir da Igreja. Por isso, sua missão não é algo que Ihe advém facultativa e posterìormente a seu ser. An tas, faz parte de sua própria constituição. De modo que, se deixasse de agir na defesa do ser humano e especialmente do pobre, deixaria de estar a será viço do Reino. Ser germe do Reino significa, preci­samente, tornar o seu profundo mistério visível na história, através de eventos concretos, de ações per­ceptíveìs. Ser germe do Reino é manifestar que o desígnio salvífico de Deus não se realiza somente na interioridade insondável do coração humano, no mundo estritamente subjetìvo de suas motivações, no santuário inacessível da consciência. Ele se ma­nifesta, na experiência de comunhão entre os cris­tãos. Esta comunhão é sinal de que são possíveis relacionamentos novos entre pessoas, baseados na atenção ao mistério do outro e no respeito à sua dig­nidade. Esta comunhão é experiência, já agora, do começo do Reino. Leva a uma paixão transformadora da realidade na prática da justiça, da defesa do po­bre, inspirando o surgimento de sociedades alterna­tivas às opressivas existentes.

57. De outro lado, o Concílio ressalta que a Igreja ainda não é o Reino definitívo de Deus. Daqui tam­bém derivam conseqüências ìmportantes. Significa que há um "mundo", o mundo humano, o mundo das realidades "terrestres" ou "temporais": família, edu­cação, cultura, economia, política. A este mundo a Igreja reconhece uma justa autonomia¢9, mas também espera que seja libertado do pecado e assumido no mistério salvífico de Cristo.
Significa que a Igreja se reconhece ao serviço do Reino, ou seja, de Deus, e não em função de si mesma. Sabe-se sempre necessitada de purifícação e renovação5°. Sempre submetida ao juízo da Pala­vra de Deus, que é semente e antecipação do Reino. Numa palavra, a Igreja "tem sempre necessidade de ser evangelizada"51.

58. Significa, ainda, que a Igreja reconhece que o Espírito Santo desperta, também, no mundo, fora da comunidade dos batizados, homens empenhados na construção de uma sociedade justa e fraterna. Eles assim estão a caminho do Reìno.
O Concílio Vaticano II afírma que todos os ho­mens são chamados à unidade do Povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal52. A Igreja é, em Cristo, "como que o sacramento ou o sinal e instru­mento da íntima união com Deus e da unidade de to­do gênero humano"53. Sobre este fundamento, a Igre­ja constrói suas relações de diálogo com as outras Igrejas cristãs54 e com outras religiões55 ou com pes­soas que não chegaram ao conhecimento expresso de Deus56. Os cristãos devem colaborar com todos na edificação de uma socìedade justa, na busca da paz e na procura da verdade.

59. Para realizar sua missão no mundo, neste tem­po que se estende entre Pentecostes e a Parusia, a Igreja precisa de uma constituição estável. Esta cons­tituição, baseada na "comunhão", é característica. Por ela a Igreja Católica, una e única, existe nas e pelas Igrejas particulares'. Em outras palavras, a Igreja é uma comunhão de comunidades. "Em cada uma des­sas comunidades, embora muitas vezes pequenas e
pobres, está presente Cristo, por cujo poder se con­grega a Igreja una, santa, católica e apostólica"58.

60. A natureza da Igreja se torna evidente na Eu­caristia. De fato, "o pão que partimos é a comunhão com o corpo do Senhor"5s. E, "uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comemos de um mesmo pão"6°. Assim Cristo é o vínculo profundo de uniâo de uma comunidade e aquele que une "em comu­mhão" todas as comunidades eclesiais, que somente podem ser Igreja de Cristo enquanto permanecem unidas nele e, através dele, a todas as outras comu­nidades.

61. Em conseqüência, todo batizado participa da comunhão eclesìal e deve contribuir para sua edifì­cação, acolhendo a graça de Cristo e os dons do Espírito Santo. Os dons do Espírito, os carismas, nunca faltaram aos fiéis. O Concílio Vaticano II quis valorizá-tos, principalmente aqueles que se colocam em benefício da comunìdade. Após o Concílio assis­timos a um florescìmento de novos minìstérios, re­cebidos e incentivados pela hierarquia da Igrejasl. No mesmo espírito, foram incentivadas as diversas vocações - laicais e religiosas - que enriquecem a vida da Igreja e seu testemunho evangélico. Foi reconhecida e valorizada a iniciativa dos fiéis e sua organízação em associações e movimentos.

62. A grande variedade de vocações e minístérios exigiu também um renovado empenho do ministério da unidade confiado, especialmente, ao ministério apostólico. Jesus escolheu doze dentre seus discípulos, e em particular a Pedro, como sinais e princípio visível da unidade de seu povo e testemunhas fiéis de sua vontade e palavras2. Também dotou a sua Igreja de sucessores dos Apóstolos, os bispos, os quais for­mam um colégio ou corpo episcopal, cuja cabeça vi­sível é o Bispo de Roma e sucessor de Pedroe3.

63. Os bispos, com a cooperação dos presbíteros e diáconos, são princípio visível da unidade das Igre­jas particulares ou dioceses. Mas, também, unidos ao Bispo de Roma e Sucessor de Pedro, o Papa, re­presentam a comunhão das Igrejas particulares uni­das em Cristo pelos vínculos da paz, do amor e da unidades4.

64. Assim, a realidade da "comunhão", que tem sua origem na Trindade Santa, assume na vida da Igreja diversas manifestações. Sobre os diversos sentidos da comunhão ["communío"), são particular­mente esclarecedoras estas palavras do Papa João Paulo II: "No âmago da autoconsciência da Igreja está a noção de Communio; em primeiro lugar uma participação pela graça na vida do Pai que nos foi dada por Cristo e no Espírito Santo [ . . . ) Esta comu­nhão tem sua origem num chamamento divino, no eterno desígnio que nos predestinou a sermos con­formes à imagem do Filho. Realiza-se isto por meio da união sacramental com Cristo mediante a partia cipação orgânica em tudo que constitui a realidade divina e humana da Igreja, o Corpo de Cristo, a qual se estende pelos séculos e é enviada ao mundo para abraçar todas as pessoas sem distinção.

65. "É óbvio que nas décadas após o Concílio esta dimensão vertical da comunhão eclesial tem sido me
nos profundamente experimentada por muitos que, .por outro lado, têm um vivo sentido de sua dimensão horizontal. Todavia, se a comunidade cristã não tiver consciência da maravilhosa e gratuita efusão da bon­dade de Deus, que nos salvou, não por causa das obras de justiça que tivéssemos feito, mas por mise­ricórdia (Til 3,4-5) a missão da Igreja a serviço da família humana estará radicalmente enfraquecida e jamais alcançará o nível pretendído pelo Concílio. 66. "O corpo eclesial é sadio na medida em que a graça de Cristo, efundida por meio do Espírìto Santo, é aceita pelos membros. Nossos esforços pastorais são fecundos, em última análise, quando o Povo de Deus - nós, bispos com o clero, religiosos e leigos - é conduzido a Cristo, crescendo na fé, na espe­rança e na caridade e se torna autêntica testemunha do amor de Deus num mundo necessitado de transti­guração' s°.

4. CAMINHOS E TAREFAS

67. A missâo da Igreja é uma só. As tarefas que de­correm da missâo são muitas. As circunstâncias con­cretas podem exigir a acentuação de algumas, em determinadas situações. Mas é essencial que não se perca de vista a unidade da missão e que a acentua­ção não se torne unilateralismo ou deformação.

68. A tarefa missionária é hoje, freqüentemente, ex­pressa numa única palavra: evangelizaçãoss. Mas se reconhece que a evangelizaçâo é uma ação comple­xa, que abrange vários aspectos. Encontramos em
nossas comunidades, e também entre bispos e teó­logos, divergências e, às vezes, até conflitos acerca da importãncia dos diversos aspectos da evangeliza­ção e das prioridades a estabelecer entre eles.

69. Parece-nos que pode trazer alguma luz a dis­tinção entre a ordem dos fins e a ordem dos meios. Na ordem da finalidade, não se pode deixar de colo­car como objetivo da evangelízaçâo a comunhão ple­na dos homens com Deus e, portanto, a comunica­çâo explícita e quanto possível integral do próprio pla­no de Deus e de Jesus Cristo como caminho para a comunhão.

70. O anúncio explícito de Jesus Cristo e de sua mensagem exige uma pedagogia. Deve atingir o ho­mem em sua situação e conduzí-Io, sem prender-se a etapas cronológicas, mas progressivamente, à plena maturidade da fé. De fato, num ambiente não evan­gelizado, a atuação do cristão pode começar pela simples presença, por um testemunho silencioso de solidariedade que vai crescendo num empenho ativo pela justiça e a libertação, num testemunho de ora­ção e de caridade fraterna, para culminar no anún­cio explícito e pleno da riqueza da mensagem evan­gélicas7.

71 . Mais ímportante ainda é frisar que todos esses aspectos ou momentos sâo evangelizaçâo; fazem parte de um único processo e se voltam para uma única intenção: testemunhar Jesus Cristo, convidar à comunhão com o Pai e os irmãos. Por isso o cristão está sempre pronto a "dar razão da esperança" que está nelesg. Por isso também o cristão, no seu engajamento pela justiça e a libertação humana, procura a libertação "integral", a que se projeta na plena to munhão com Deus e com os irmãoses.

72. Visando aqui confirmar e completar as nossas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, destacaremos a1 gomas tarefas da Igreja no Brasil com relação à par. ticipação na sociedade e à formação do povo de Deus


4.1. PARTICIPAÇAO NA SOCIEDADE

73. Investida de uma missão divina, a Igreja, "mis­tério" e realidade transcendente, é, ao mesmo tem­po, realidade visível, corpo social, povo que vive na história e cujos membros são solidários com a socie­dade humana70.

74. , por isso, levada a particípar da construçâo da comunidade dos homens, a dar sua contribuição à sociedade civil, da qual por sua vez muito recebe7l. Nesta participaçâo, a Igreja, procurando a justiça e a paz, respeita a autonomia das "realidades terrestres", das instituições humanas sociais e políticas'2. Nâo pretende definir tecnicamente a forma desta socieda­de ou determinar sua gestâo política e econõmica73.

75. De outro lado, a Igreja reivindica a liberdade de exercer sua missão e de agir segundo os princípios evangélicos e, portanto, de poder, sempre e em to­da a parte, pregar a fé, realizar o seu culto, ensinar a doutrina social, exercer livremente a sua função entre os homens e proferir o juízo moral sobre rea­lidades que se relacionam com o bem comum. Por­
que a Igreja tem consciência de que a humanidade será profundamente prejudicada, se não Ihe for ofe­recida a mensagem evangélica em toda a sua ri­queza'4.

76. Tal atitude da Igreja não exorbita de sua esfera nem fere a razão humana. Pois todo corpo social, pelo fato de existir, constrói a sociedade dos ho­mens, influencia o mundo das pessoas, faz história. Ele é, por sua vez, construído pela sociedade, influ­enciado pelo mundo, criado pela história. A Igreja não pode, portanto, esquivar-se de tal realidade. Mas a Igreja, pode, sim, querer discernir e decidir sobre a natureza e a qualidade de sua presença. A ideologia líberal quer negar tal direito à Igreja e relegá-Ia ao silêncio, tornando-a desencarnada e preocupada ape­nas com sua vida interna. Calaria, assim, toda crítica ética e evangélica que a Igreja pudesse fazer. Mas se a Igreja fosse conivente com tal ideologia, estaria apoiando, sem mais, o "status quo" de regimes que produzem tantas injustíças sociais. As ideologias to­talítárias foram, muitas vezes, além, não apenas afas­tando radicalmente a Igreja de qualquer atuação so­cial, mas limitando severamente até sua liberdade interna.

77. Hoje, com mais clarividência, a Igreja sabe que sua presença na história e na sociedade não pode ser neutra e totalmente apolítica, já que, estabele­cendo necessariamente relações com outros corpos sociais com o Estado, influencia de alguma maneira o exercício do poder. Toca-Ihe, pois, apurar os crité­rios evangélicos para nortear-Ihe as açôes'5.

78. Em face da situação concreta da sociedade hu­mana, organizada de forma injusta e desigual, a Igre­ja não pode ficar numa tranqüila posição de indiferen­ça ou neutralidade que terminaria em conivéncia. A Igreja traz à sociedade humana, profundamente mar­cada pela injustiça e opressão, principalmente uma orientação ética (que se expressa num "ensinamento social") e, ao mesmo tempo, um impulso libertador, que mantém viva a esperança daqueles que lutam pela libertação integral do homem, a partir da fé e da força que vem do alto.

79. Nessa contribuição para a construção de uma socìedade humana, justa e fraterna, a Igreja inspira­-se nas próprias fontes de sua missão: o Plano de Deus sobre a história humana que se manifestou de forma definitiva e irrevogável no caminho de Jesus e na sua mensagem, tão singelamente expressa nas Bem-aventuranças`s. Para ser coerente com a mensa­gem profética e libertadora do Evangelho, a Igreja não pode deixar de denunciar situações e estruturas iníquas", colocar-se prioritariamente ao lado dos po­bres e oprimidos e participar, dentro de suas con­dições específicas, da construção de uma nova so­ciedade°9.

80. A partir de seus fundamentos evangélicos, a Igreja procura formular princípios éticos e critérios para discernir estruturas e situações, mesmo con­tingentes, e impulsionar a participação dos cristãos na vida e organização da sociedade.

81. A reflexão sobre os princípios da vida social conduz ao julgamento das situações históricas con­
tingentes e à formulaçâo de projetos ou diretrizes de açãos°. O ensinamento social da Igreja é "essen­cialmente voltado para a ação"g1. Por isso, muitas ve­zes, retere-se a circunstâncias mutáveis e "perma­nece constantemente aberto às questões novas que nâo cessam de se apresentar"8z. Assim a Igreja deve rever constantemente seu modo de inserção na so­ciedade e a maneira de organizar a tarefa de evan­gelìzar a realidade humana, inclusive em sua di­mensão social e política83.

82. A participaçâo da Igreja na sociedade desdo­bra-se em muitas formas, que decorrem tanto da ur­gência dos problemas sociais, econômicos e cultu­rais, quanto dos critérios evangélicos que norteiam a missão da Igreja e dos cristâos. Em nosso país é necessário mais do que nunca aquele " imenso esfor­ço de educação"84 para uma civilização do trabalho, para a solidariedade e para o acesso de todos à cul­tura, sem o que uma nova sociedade não será pos­sível. O Santo Padre nãos recomendou recentemente, como tarefa de alta relevância, conexa com a função episcopal, "a de educar para a libertação educando para a liberdade"85

83. Voltaremos a aspectos mais específicos da par­ticipaçâo da Igreja na sociedade, na segunda parte do nosso documento.

4.2. FORMAÇÃO DO POVO DE DEUS

84. A primeira tarefa da Igreja, anterìor a qualquer outra, é a formação do Povo de Deus e a constru­ção da própria unidade. Com razão nos lembra isso
o Concílio, quando afirmou que a unidade é um dom de Cristo à sua Igreja, acrescentando "esperamos que ela cresça, dia após dia, até a consumação dos séculos "8s.

85. A preocupação com a unidade que é dádiva do Pai e ao mesmo tempo fruto de um esforço constante e inculcado pelo Vaticano II: "Em virtude de sua mis­são que é iluminar o mundo inteiro com a mensagem evangélica e reunir em um único Espírito todos os homens de todas as raças e culturas, a Igreja torna­-se o sinal daquela fraternidade que permite e con­solida um diálogo sincero. Isto, porém, requer em primeiro lugar, que promovamos no seìo da própria Igreja a mútua estima, respeito e concórdia, admi­tindo toda a diversidade legítima, para que se estabe­leça o diálogo cada vez mais frutífero entre todos os que constituem o único Povo de Deus, sejam pas­tores, sejam demais cristãos. O que une os fiéis, é com efeito, muito mais forte do que aquilo que os separa. Nas coisas necessárias reine a unidade, nas duvidosas a líberdade, em tudo a caridade"8°.

86. A preocupação com a construção da unidade corresponde ao desejo expresso de Jesus: "que che­guem à plenìtude da unidade e o mundo reconheça que me enviaste "88. Paulo VI comentou esta oração de Jesus: "Como evangelizadores, nós devemos apre­sentar aos fiéis de Cristo, não já a imagem de ho­mens divididos e separados por litígios que nada edi­ficam, mas, sim, a imagem de pessoas amadurecidas na fé, capazes de se encontrar para além de tensões que se verifiquem, graças à procura comum, sincera e desinteressada da vérdade. Sim, a sorte da evan­
gelizaçâo anda sem dúvida ligada ao testemunho da unidade dado pela Igreja"8s.

87. Na sociedade a presença dos cristãos exigem a existência da comunidade eclesial, que é sinal e sa­cramento da comunhão, para a qual caminha a huma­nidade, e que é o lugar onde os próprios cristãos, escutando a Palavra de Deus, vivendo sua fé e ca­ridade, participando dos sacramentos, renovando sua formação, sob o cuidado dos Pastores, realimentam seu espírito missionário e seu empenho na constru­ção da sociedade justa e fraternas.

88. Esta exigência é mais forte hoje porque a cul­tura em que vivemos nâo é inspirada pelo Evange­Ihosl. As pessoas e grupos sociais encontram-se, fre­qüentemente, diante de um dilema, nem sempre conscientemente percebido: ou aceitar o individualis­mo e os padrões dominantes da cultura da socieda­de capitalista, ou buscar ativamente a resistência e a preservação de outros valores culturais e religio­sos em comunidades e grupos, que assumem uma dis­tância crítica em face da sociedades2. Sem cair no iso­lamento e sem abandonar uma participação ativa e crítica na vida social, os católicos necessitam, hoje mais que no passado, encontrar momentos de viven­ciar e expressar sua identidade e pertença à Igreja.

89. A comunidade eclesial - diocese, paróquia, co­munidade de base, família, associação ou movimen­to - pode contribuir para que o povo saia da dis­persão e marginalização civil e social a que é redu­zido. As comunidades eclesiais sâo, na base da so­ciedade, fermento de união e de solidariedade, de
conscientização e participação. O desenvolvimento das comunidades eclesiais de base e a ação pasto­ral da Igreja têm contribuído, nos últimos anos, para que os pobres se tornem maìs corajosamente, pro­tagonistas de um processo paciente e não violento de libertação, apesar dos grandes obstáculos econô­micos e políticos que enfrentam. Também grupos de intelectuais e profissionais se sensìbilizam com o clamor dos pobres e com eles se solidarizam na bus­ca de uma sociedade justa e fraterna.

90. Toda comunidade eclesial é, por sua natureza, ministerial e missionária. Ela está a serviço dos ir­mãos, especialmente dos mais pobres e sofredores. Ela anuncia o Evangelho do Reino, para indicar a todos os homens o caminho da salvação em Cristo. Toda comunidade eclesial, portanto, deve interrogar­-se permanentemente sobre seu espírito missionárìo, sobre sua real disposição e seu empenho no serviço do mundo e do Evangelho. Mas não basta que o es­pírito missionário se limíte a suscitar em alguns atitudes subjetivas, pessoais: vontade de doação ou disposição de servir. Muitas de nossas comunidades, examinando-se a si mesmas, constatarão - como ou­tras já o fizeram - que uma parte muito pequena de seus recursos humanos e materiais está efetìva­mente voltada para a missão. É preciso que a comu­nidade se organize de forma que, no seu conjunto e pela repartição dos diversos servìços ou mínistérios, toda ela mereça o nome de "comunidade missioná­ria". Tal fim ainda não é alcançado, muitas vezes, por­que continua vigorando a falsa concepção que atribui unicamente aos ministros ordenados [bispos, padres, diáconos) e aos religiosos a responsabilidade pela
evangelizaçâo e missâo da Igreja. Essa responsabi­lidade é de todos os batizados93.

91. As comunidades eclesiais, em sua ação evan­gelizadora e em seu serviço ao mundo, sabem que são chamadas a uma responsabilidade altíssima, que o evangelista Mateus define com as mesmas pala­vras que designam a missão de Cristo: "Vós sois o sal da terra (...) Vós sois a luz do mundo"9. Elas devem se tornar um fermento e um modelo de "co­munhão e participação", que manifeste inequivoca­mente comunhão que brota da comunhão trinitária95.

92. Para responder melhor à complexidade da rea­lidade social e eclesial atual, as comunidades ecle­siais devem atender às exigências de sua ação evan­gelizadora e libertadora nos diversos níveis em que ela se põe:

93. - O nível da pessoa. Cada pessoa sempre tem direito ao seu próprio desenvolvimento e à sua priva­cidade. Ela deve encontrar apoío e comunhão na co­munidade, mesmo quando as circunstâncias não Ihe permitem uma partìcipação freqüente na vida comu­nitária ou até mesmo a isolam e marginalizam. Nos­sa ação missionária e pastoral, quer com grupos se­letos, quer com grandes massas, deve abrir espaço para a comunìcação pessoal, o diálogo paciente, o atendimento individual e deve criar novos ministé­rios e iniciativas para atender as pessoas.

94. O nível do grupo ou da pequena comunidade. E na comunidade que os fiéis podem compartilhar sua experiência cristã e fraterna, aprofundar sua vi­
são crítica da realidade e seu conhecimento da Pa­lavra de Deus, organìzar e fortalecer sua coopera­ção e sua ação a serviço do Evangelho e da socie­dade. Levando em conta o contexto social e a expe­riência já acumulada, devem ser procuradas formas associativas adequadas: comunidades locais ou de base, associações e grupos, movimentos novos ou já tradicíonais. Condíção comum é que todos eles mantenham uma efetíva comunhão com a paróquia e a Igreja díocesana, inserindo-se no planejamento pastoral de conjunto e evitando a atitude quase sec­tária de quem se pretende detentor da única forma válida de seguir e servìr a Cristo;

95. - O nível da articulação mais ampla. Pessoas e grupos são hoje, freqüentemente, envolvìdos em situações e movimentos mais amplos, seja nos gran­des sìstemas burocratìzados, seja nos comportamen­tos de massa. A pastoral deve procurar levar em conta também estas situaçôes, que exigirão das pró­prias comunidades eclesiaìs um esforço de integra­ção em nivel paroquial, diocesano, regional e mesmo nacional. Nisso serão ajudadas por uma consciência viva de sua catolicidade, que leva à pratica efetiva da solidariedade entre as Igrejas Partìculares e ao aprofundamento dos laços com o centro da Igreja Uní­versal, a Sé de Pedro e do Papa.

96. Nesses vários níveis deve-se ter sempre em mente: a) é pela pregação do Evangelho que sâa geradas as Igrejas e somos, como cristâos, nelas incorporadosss; b) pela Eucaristia se realíza em ple­nitude a comunhâo eclesíal em vísta da formação do povo de Deus; c) a vivência da plena Comunhão [Koinonía) expressa e faz crescer o povo de Deus.

97. A comunhão radical com Deus, a comunhão fra­terna e a vísão profética e evangélìca da realìdade se renovam nas próprias fontes da vida cristã. Se toda a vida eclesial é de algum modo "sacramento", isto é, sinal e instrumento da união com Deus e dos homens entre sí, dois momentos expressam, de mo­do mais pleno, e realimentam esta vída: a escuta da Palavra de Deus e a celebração da líturgias7. Palavra e liturgía são fonte e ápice da vida cristã, partìcu­larmente quando se realizam na plenitude da vida eclesial, na Eucaristias8. É importante, porém, que a celebração da Missa, dos Sacramentos e da Palavra de Deus mantenham seu vigor e sua autenticidade, ou os readquiram, se por ventura os tiverem perdido. Por isso, o Concílio Vatìcano II e os inúmeros docu­mentos, com que a Santa Sé realizou a reforma li­túrgica e renovou a leitura da Bíblia e a catequesess, insistem na participação ativa dos fiéis e na apre­sentação das verdades da fé na linguagem de nosso tempo. Aquí também deve-se procurar incessante­mente aquela unídade entre fé e vída, que é carac­terística da relígião bíblíca e da ação salvífïca do "Deus-conosco". Essa unïdade se expressa na ilumi­nação da vida pela Palavra e numa liturgia que, sen­do celebração do Mistério Pascal, procura celebrar e santificar a vida.

5. ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

98. Condiçâo para que a Igreja realize sua missão é o engajamento generoso e firme, pessoal e livre, de cada cristão. O compromisso e a doação de uma pessoa à missão da Igreja é, ao mesmo tempo, consagração a Deus e caminho de santidade. Há díver­sas formas de concretizar tal compromisso, dando orìgem a diferentes tipos de "espiritualìdade"I°°. E todavia, há uma base comum: a espiritualidade cris­tã. Ela quer oferecer a todos o meio de viver coe­rentemente, segundo a vontade de Deus, as tarefas da missão cristã: o louvor a Deus, a construção da sociedade humana, a comunhão eclesial e a ativida­de missíonária. Pois toda a vida em Cristo é um cul­to oferecido a Deus e o cristáo que vìve no mundo é sacerdote e profeta.

99. O Concílio Vaticano II reafirmou com força uma verdade que andava em certa medida ofuscada, a vo­eação unìversal à santidadel°l: "Sede perfeitos como o Pai do céu é perfetito "1°2.

100. Desse apelo se aproxíma a exortação da "Evan­gelü Nuntiandi", quando diz que "não haverá huma­nidade nova, se não houver, em prìmeìro lugar, ho­mens novos, pela novidade do Batismo e da vida se­gundo o Evangelho. A fínalidade da evangelização (...) é, precisamente, esta mudança interior; e se fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quan­do ( . . . ) procura converter, ao mesmo tempo, a cons­ciéncía pessoal e coletíva dos homens, a atividade em que eles se aplicam e a vìda e o meio concreto que Ihes são próprios "103. Na mesma linha, Puebla exige uma "conversão do coração", que não esteja deslìgada do empenho na transformação das estru­turas sociaisl04,

101. O camínho da conversão ao 'Evangelho, que 4eva a assumír o "homem novo"1° é o caminho do seguimento de Jesus. Os próprios Evangelhos, trazen­do-nos a pregação e a vida de Crísto, não se limí­taram a fazer memórìa do passado, mas propuseram aos cristãos de todos os tempos um roteiro a ser percorrido novamente, que Ihes possibilitasse seguir os passos de Jesus. O mesmo faz freqüentemente o apóstolo Paulo, que indica aos seus irmãos o cami­nho da imitação de Cristol°5, para que tenham as mesmas atitudes e os mesmos sentimentos de Je­susl°T. Hoje, em nosso contexto latino-americano, muitos cristãos redescobrem a espiritualidade do se­guimento de Jesus, na imitação de suas virtudes, no serviço dos irmãos pobres e sofredores, abraçando a cruz, doando a vidal°8.

102. A identificação do cristão com Cristo pode ser descrìta com outra linguagem, inspirada, ìgualmente, pela Bíblia. O Novo Testamento, que leva a termo 0 Antigo, e a Tradição eclesial apresentam o Filho de Deus feito homem, como Aquele que, por um título totalmente novo, é profeta, sacerdote e reí. Também os cristãos unidos na comunidade eclesial, novo Tem­plo de Deus, participam, desde o Batismo, da dígni­dade profética, sacerdotal e reall°9.

103. Há, portanto, um sacerdócio comum a todos os fiéis cristãos, participação no sacerdócio de Cris­to. Jesus Cristo realíza em plenitude seu sacerdócio na entrega da própria vida ao Pai por nósll0 e na sua Ressurreição glorìosa... Por conseqüência, também o sacerdócio dos cristãos consíste, antes de tudo, na oferta da vida ao Pai: "Eu vos exorto, ìrmãos, a ofe­
tecer vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agra­dável a Deus"1'1. É a mesma doutrina do apóstolo Pedro: "Achegai-vos a Cristo, pedra viva (...) e quaís outras pedras vivas vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus"112. Estas palavras inspiradas apontam para todos os cristãos - leigos ou ministros, inseridos em comu­nídades religiosas ou não - a perspectiva que deve dar sentido a toda sua existência.

104. Tudo pode ser feito "para a glória de Deus"; 13. As atividades cotidianos da existência, o trabalho, o empenho pela justiça e a edificaçâo de uma sociedade fraterna, tornam-se caminho de santificação e de san­tidade. As próprias dificuldades e tribulações que o cristão enfrenta no mundo, não são motivo para fu­gir ou retirar-se no isolamento, mas ao contrário, cons­tituem dado fundamental do seguimento de Cristo, testemunho de sua esperança e motivo que podem conduzir os outros a reconhecerem e glorificarem a Deusll4 s sacramentosll5 e o próprio ministério dos bispos, presbíteros e dìáconos estão orientados para a santificação dos cristâos e o exercício deste sacerdócio comum a todos os fiéis.

105. Da mesma forma, os cristâos podem exercer sua missâo profética pelo testemunho de vida, mais do que pela palavra, quando em suas atitudes e op­ções revelam sua esperança no Reino e procuram lutar contra "o espírito das trevas"lls. Também ma­nìfestam sua dignidade real, quando vivem na liber­dade dos filhos de Deus, sem deìxar-se escravizar e submeter pelos poderes deste mundo: antes contri­
buem para que os bens da criação e a história hu­mana se ordenem para o Reino de Deusll7.

106. Em poucas palavras, pode-se dizer que a exis­tência cristã vive na tensão entre dois poios: o po­lo do compromisso atual e cotidiano na construção de uma sociedade segundo o plano de Deus, no tra­balho, na fadiga, no sofrimento; e o polo da esperan­ça na plena revelação da glória de Deus e da realiza­ção do seu Reino, que somente pode ser anunciada na profecia, antecipada na contemplação, no louvor, nos símbolos festivos que a evocam e preparam. As duas dimensões - a da ação e a da contemplação, á do serviço e do louvor, a do trabalho e a da festa - devem marcar a vida do cristão. Sem uma delas, a existência cristã perde seu sentido. Sem trabalho, compromisso, ação, a vida se torna fuga e evasão. Sem oração, louvor, esperança, a vida se torna es­cravidão e fadiga sem razão. No seguimento de Cris­to, o cristão vive indissoluvelmente o sofrimento da cruz e a alegria da ressurreição.

PARTE II

URGENCIAS DA MISSAO

107. A reflexão desenvolvida na Parte I deste do­cumento quer contribuir nâo apenas para aprofundar a consciéncia da missão da Igreja, como também, levar-nos, a nós, a todos os cristãos engajados e a todas as pessoas de boa vontade a compreender melhor a missão da Igreja em nossa realidade nacio­nal e a participar mais eficazmente da construção da sociedade justa e. fraterna, que almejamos.

108. Vamos, portanto, voltar-nos agora para quatro aspéctos fundamentais e urgentes da missão da Igre­ja: na evangelização dos povos, no mundo do traba­Iho, da política e da cultura.

109. Vamos fazé-Io a partir do ponto de vista da fé, ou seja, visando àquele "discernimento" da von­tade de Deus, que é também procura do verdadeiro bem da sociedadel.

110. Este discernimento exige cuidado metodoló­gico, porque se exerce em torno de realidades com­plexas. Um esforço sistemático de compreensão e discernimento da missão evangelizadora da Igreja na América Latina foi realizado pela III Conferéncia Ge­ral do Episcopado Latino-americano, em Puebla (1979). Ela iluminou e impulsionou nossa ação pastoral nos últimos anos. Ela adotou, também, uma metodologia que continua preciosa: análise dos fatos a partir de uma perspectiva ou "visão" pastoral; reflexâo crítica à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja; a partir disso, elaboração de diretrizes para a ação pastoral.

111 . A tarefa iniciada por Puebla nâo está termina­da. O próprio documento final de Puebla destaca a necessidade de continuar o trabalho de discernimento e a elaboraçâo de uma ética social cristâ, com a par­ticipação dos leigosz. De forma semelhante, a recen­te Instrução sobre a Liberdade Cristâ e a Libertação explica como o Ensinamento Social da Igreja oferece não apenas princípios, mas também critérios de jul­gamento para discernir situações, estruturas e siste­mas sociais3.

112. O trabalho de discernimento que aqui realiza­mos nâo pretende concluir esta tarefa, mas oferecer subsídios. O que aqui é refletido deverá ser retoma­do e aprofundado em situações locais ou específicas. A própria ação pela transformação da sociedade, na medida em que avançar, levará a novos questiona­mentos e a novas reflexões, em busca de um discer­nimento mais claro de novas diretrizes para continuar a açâo.

NA EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS

1 . INTRODUÇÃO

113. A missão da Igreja se estende até os confins da terra, pela ordem que ela recebeu de Cristo e pela vontade de Deus Pai, que "quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade"l. Por isso, a missão da Igreja - que abrange todo o seu ser e constitui seu dinamismo essencial - se expressa de um modo particularmente significativo na missão "ad gentes", na evangelização dos povos, a tal ponto que "as missões" se tornaram sinônimo de missão. Hoje uma nova consciéncia míssionária não somente revi­gora a evangelização dentro de nosso país, como em todos os países de maior tradição cristã, mas suscita também nas novas Igrejas e, particularmente na Amé­rica Latina, um novo empenho com a evangelização dos povosz. Muitos sinais anunciam uma hora mis­sionária para o Brasil.

2. "HORA MISSIONARIA" DA IGREJA NO BRASIL

114. "Finalmente chegou para a América Latina a hora de intensificar a ajuda mútua entre as Igrejas particulares e de se abrir para além de suas próprias fronteiras: 'ad gentes'.  verdade que também nós precisamos de missionárìos. Porém, devemos dar de nossa pobreza "3.

115. São sinais indicativos desta "hora missionária" para o Brasil e a América Latina:
- A exigéncia de justiça que convida a partilhar com os outros o dom da fé que recebemos atra­vés de outras Igrejas;
- O aumento do número dos católicos na América Latina, que dentro de poucos anos serão a metade dos católicos do mundo;
- O crescimento vocacional na América Latina;
- A diminuição do fluxo missionário dos países do primeiro mundo;
- A exigéncia do envio de missionários latino-ame­ricanos para países do Terceiro Mundo que, nos últimos anos, conseguiram sua independéncia po­lítica;
- A opção preferencial pelos pobres que leva a pensar nos pobres que, além da carência de bens matèriais, são pobres do conhecimento do Evan­gelho;
- A consciência da situação extremamente grave dos povos indígenas em nosso país;
- Pedidos diversos e insistentes, vindos de fora e de dentro do país, que apelam para a capacidade missionária de nossas Igrejas.

116. As exigéncias do trabalho pastoral em nossas dioceses não nos dispensam da missão "ad gentes". Antes, o envio missionário contribui para a renovaçâo e vitalidade das Igrejas particulares. É também uma maneira evangélica de retribuir o muito que recebe­mos, durante séculos, da parte de missionários de outras nações. Embora insuficiente, é significativo 0 aumento do número de missionários brasileiros ­sacerdotes, religiosos, leigos - que deixam suas co­munidades de origem para assumirem trabalhos mis­sionários dentro e fora do país.

3. A IGREJA PARTICULAR, SUJEITO DA MISSÂO

117. A Igreja Universal, verdadeira esposa de Cris­to, Comunhão de todas as Igrejas locais que o Espí­rita Santo suscita, realiza-se em cada uma delas4. Por isso, cada Igreja local ou particular é co-respon­sável pela Igreja inteira e por sua missão de evan­gelização dos povos. Para permanecer na comunhão eclesial e realizá-Ia efetivamente, a Igreja particular deve põr em comum seus recursos espirituais e ma­teriais, a serviço da difusâo do Evangelho. Concre­tamente, cada diocese - e, dentro dela, cada paró­quia ou comunidade, cada cristão - pelo próprio dinamismo da comunhâo eclesial é chamado a par­ticipar da missão. As missões "ad gentes" não são, portanto, algo facultativo para a Igreja local, mas fa­zem parte constitutiva de sua responsabilidade. As missôes não são apenas tarefa de Institutos Missio­nários ou de Obras Pontifícias, que antes solicitam e exigem o crescimento do espírito missionário das Igrejas particulares.

118. A maturidade de uma Igreja local é fortaleci­da, na medida em que ela se abre a outros horizontes e contextos eclesiais, sociais e culturais: passa, en­tão, ao assumir, co-responsavelmente, o mandato do Senhor de evangelizar todos os povos5.

119. Por isso mesmo, uma Igreja local não pode esperar atingir a plena maturidade eclesial e, só en­tão, começar a preocupar-se com a missão para além de seu território. A maturidade eclesial é conseqüên­cia e não apenas condição de abertura missionária. Estaria condenando-se à esterilidade a Igreja que dei­xasse atrofiado seu espírito missionário, sob a ale­gação de que ainda não foram plenamente atendidas todas as necessidades locais.

120. E certo que a grande maioria das Igrejas parti­culares no Brasil é pobre em recursos humanos e materiais, mas nossas Igrejas podem oferecer algo de original: a busca de salvação e libertação, a ri­queza de sua religìosidade popular, a experiência das Comunidades Eclesiais de Base, a floração de seus ministérios, sua esperança e a alegria de sua fé. Já se realizaram esforços missionários que se podem aprofundar e se devem ampliara.

121. Nesses últimos anos, a Igreja descobriu si­tuações missionárias dentro do próprio país, princi­palmente, no Norte, Nordeste e nas regiões de forte migração, nas periferias das grandes cidades, que exigem uma resposta missionária, "ad gentes":
- Grupos que ainda não receberam o primeiro anún­cio do Evangelho ou grupos especiais que precisam do anúncio missionárìo específico';
- Regiões onde aìnda não existe uma Igreja local formada, ou a que faltèm os recursos humanos e materiais necessários.

4. PERSPECTIVAS DE AÇÃO MISSIONÁRIA

122. A dimensão missionária da Igreja Particular exi­ge uma evangelização que:
- anuncie explicitamente Jesus Cristo, isto é, "o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus"8
, - vise à inculturação da fé, empenhe todos os cris­tãos na construção de uma sociedade justa, fra­terna, partícipativa, digna da grande família de Deus;
- comprometa a todos na comunhão e participação; .- baseada no diálogo, favoreça o intercâmbío, o enriquecimento recíproco, a colaboração com to­dos os homens de boa vontade, crentes ou não, que procuram caminhos de justiça, de fraternida­de e comunhão;
- assuma a encarnação como caminho da missão e se fundamente na plena inserção na realidade s6­cio-cultural. Essa inserção pressupõe a preserva­çâo e o cultivo da identidade específica do missio­nário ordenado, religioso ou leigo;
- vise à formaçâo de comunidades cristãs, capazes de ligar constantemente fé e vida, e, dentro delas, a formação dos agentes de pastoral necessários;
- se realize de pobre para pobre, sem abundãncia de recursos, sem resquícios de dominação cul­tural, política e econõmica;
- saiba enfrentar o conflito e acolher a persegui­ção e o martírío por causa do Reino de Deus.

123. Ouanto mais viva é a Igreja partìcular, tanto mais tornará presente e visível a Igreja universal e mais forte será o seu espírito missionários. Assim:

124. a) Cada Igreja Particular se organize como "Igreja Missionária".
A dimensão missionária ìluminará, de certo modo, toda a pastoral da Igreja particular. Para ísso, desig­nará um sacerdote como responsável em suscitar e incentivar iniciativas que promovam, em todos os crìstãos, a consciência missionáriai°. Cada diocese tenha a sua equipe de animação missionária desti­nada à tarefa de coordenar, estimular e planejar as atividades missionárias da comunidade, de tal ma­neira que, pouco a pouco; nas paróquías e nas peque­nas comunidades que as constituem, todo o povo de Deus tome consciéncia da sua vocação missionária. Nos Semináríos Maiores, o estudo da Missiologia seja incluído entre as disciplinas do currículo teo­lógico.
O Curso de pós-graduação em Missiologia, inaugu­rado recentemente no Brasil, deve propiciar a pre­paração adequada de professores dessa disciplina e, ao mesmo tempo, despertar e ajudar a reflexão mis­sionária, em nossas Igrejas.

125. b) 0 "Projeto Igrejas-Irmãs" seja revisto e di­namizado a partir de novos crítérios.
Durante várìos anos o "Projeto Igrejas-Irmãs" res­pondeu - e está ainda respondendo - ao imperativo do ideal missionário de numerosas díoceses e pre­iazias da Igreja no Brasil. Favoreceu a ajuda e a co­munhão entre diversas Igrejas particulares e propor­
cionau a muitos sacerdotes, seminaristas, comunida­des religiosas e agentes de pastoral leigos, expe­riências apostólicas, que os eriqueceram grande­mente.
Após vários anos de experiéncia, vemo-nos hoje, na necessidade de revìtalìzar essa ìniciativa. Importa aprofundar a reflexão teológica e pastoral sobre a solidariedade com as Igrejas necessitadas; definir tipos de ajuda, com projetos concretos; escolher, for­mar, acompanhar os agentes missionários; estar, en­fim, aberto à reciprocidade na ajuda fraterna. Para isso, certamente se faz necessária uma coordenação diocesana, regional e nacional'1.
Começam a surgir, felizmente, os projetos regionais unindo várìas Igrejas, na mesma vocação missioná­ria e no propósito comum de atenderem às necessi­dades pastorais da região-irmã. Esta inicíativa, entre­tanto, não deve prejudicar a possibilidade de inter­câmbio entre uma Igreja particular e outra.

126. c) A Pastoral Indigenista receba tratamento adequado por parte das Igrejas do Brasíl.
Existem, no Brasil, mais de 70 circunscrições ecle­siásticas com presença indígena. Várias Congrega­ções Religiosas e cristãos leìgos estão comprome­tidos com a Pastoral Indigenísta, inseríndo-se nas co­munidades indígenas, numa dimensão de evangélica solidariedade. Não podemos deixar de incentivar esta Pastoral.
Os missionários encontram séríos obstáculos no exer­cício de sua ação evangelizadora. Uns são expulsos das áreas onde atuavam, outros proibidos de entrar nelas. Muitos povos indígenas são hoje completa­
mente abandonados e estão à espera da presenç; solidária de missionários.
É, pois urgente garantir a presença missionária na; comunidades indígenas. Não podemos silenciar dian te das violências de que são vítimas (falta da demar cação e garantia de suas terras, invasão e saque das riquezas naturais nelas existentes; violência a sua identidade, cultura e à sua sobrevivência come povos). Esperamos que as autoridades governamen tais deixem de dificultar ou inibir a Pastoral Indige­nista realizada pela Igreja e devolvam aos missioná­
 rios a liberdade de ação, reconhecendo-Ihes o "direi­to de evangslizar".

127. d) O espírito missionário da Igreja responda às interpelações de algumas situações especiais:
- muitas migrações internas e a conseqüente in­chação das cidades nas periferias pouco assisti­das religíosamente, causando o agravamento da violência, do abandono da infãncia e da delinqüên­cia juvenil;
- os nõmades (ciganos) hoje cerca de 300 mil, mui­tos deles católícos, e sem a necessária assistên­cia pastoral;
- a população negra, com sua cultura e sincretismo rei igioso.

128. e) Os Institutos de religiosos e outros, sejam, de certa forma, a memória mìssionária da Igreja. Uma vocação especial de Deus os levou a maior dis­ponibilidade para o Senhor e para o serviço do seu Reino e a assumirem situações missionárias as mais
difíceis. Seus membros consagram-se ao Senhor e doam-se totalmente à causa do Evangelho. Cada Ins­titto lembra, assim, segundo o seu carisma, a dimen­são missionária da Igreja, integrando-se nas Igrejas particulares, como presença dinamizadora do espí­rito missionário delas. Mesmo as ordens religiosas de vida contemplativa, por sua especial vocaçâo e carisma, assumem a dimensão missionária.

129. f) Aprofunde-se a reflexão sobre "o envio mis­sionário" de cristãos-leigos.
todos os cristãos são chamados a viver a dimensão missionária de sua fé. Muitos desejam testemunhar a própria fé, consagrando-se igualmente à Missão dentro e fora do Brasil - e constituem assim um desafio à criatividade e organizaçâo missionária das Igrejas. Importa aprofundar a reflexão missionária. Compreendê-tos e apoiá-tos. Elaborar com eles e com as Igrejas interessadas, projetos concretos de servi­ço missionário. Selecionar e formar, de maneira ade­quada, os eventuais candidatos à Missão. Estudar a formação de uma eventual coordenaçâo dos Organis­mos Missionários leigos.

130. g) Os problemas do mundo relacionados com a justiça e a paz sejam vistos na dímensão missio­nária da Igreja.
Bem analisados, esses problemas manifestam a rela­ção de dependência e de injustiça entre o Norte e o Sul, ou entre os blocos de interesses políticos, geo­polítos, econômicos e ideológicos opostos.
A Igreja será a consciência crítica em face de tais sìtuações. Promoverá ou apoiará ações concretas de
solìdariedade com as vítimas da injustiça. Denuncia­rá toda injustiça no mundo sem se desviar da sua missão e sem perder a própria identidade.

131. A dimensão missionária da Igreja se concre­tiza, tanto no atendimento aos apelos do Evangelho na própria Igreja Partìcular quanto na sua abertura à evangelizaçâo dos povos.
A abertura missionária ao mundo, será o grande fruto e a prova de nossa opção missionária como serviço à Igreja Universal. Será, também, um teste­munho eloqüente de nossa "evangélica opçâo prefe­rencial pelos pobres", segundo o programa que a Igreja do Brasil assumiu em suas diretrizes gerais da Acão Pastoral.

NO MUNDO DO TRABALHO

1 . INTRODUÇAO

132. O Trabalho humano é fator fundamental da so­ciedadel. Na organização socìal, a divisão do traba­Iho inclui a produção da riqueza e sua distribuição. Neste contexto, a organização do trabalho (jornada de trabalho, condições de trabalho, direitos traba­Ihistas, organização sindical, remuneração, previdén­cia social, política salarial, destinação dos exceden­tes) determina as condições de vida e de cultura da maioria da população. Através dessa realidade se mede a real situação da justiça, da democracia e da liberdade. Na Encíclica "Laborem Exercens", João Paulo II considera o trabalho humano "uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social "z.

133. Por isso, o trabalho humano "assume uma im­portância fundamental e decisiva"3, que exige cons­tante e renovada atenção. A Igreja no Brasil, fiel à sua missão de Evangelização, não pode deixar de refletir a complexa situação do trabalho no país, es­pecialmente, neste momento histórico.

2. FATOS 0UE OUESTIONAM A SOCIEDADE E A IGREJA

134. A atual organização de nossa sociedade faz com que no trabalho haja enraizadas complexas for­mas de ìnjustiça, exploração e opressão, e não de
realização e libertaçâo, de grande parte do nosso povo.

135. O objetivo último da produção econõmica é assegurar para cada pessoa, cada família e para toda a comunidade condições de vida digna: é o Bem Co­mum. Ora, o nosso modelo econômico de desenvol­vimento, voltado para o lucro desenfreado, desconhe­ce esse objetivo fundamental. Além do mais, gran­de parte do lucro vai para o capital internacional, nu­ma dependência que se exprime na ação explorado­ra das multinacionais e no endividamento externo. A expansão desse modelo de desenvolvimento amea­ça também a qualidade de vida pela contaminação do meio ambiente, principalmente em zonas de alta concentração industrial e pela exploração predatória da natureza, que põe em risco o sistema ecológico4.

136. Nesse modelo de desenvolvimento onde a acu­mulação individualista e egoísta da riqueza é o valor supremo, as pessoas são consideradas e valorizadas pelo seu poder de compra e de consumo. Enquanto a maioria do povo é excluída dos frutos do trabalho, os bens e serviços são produzidos em função daquela minoria que tem capacidade de acumulá-tos, consu­mí-tos e esbanjá-tos. No Brasil certamente a desi­gualdade social continua crescendo, numa dinâmica perversa, em que os ricos se tornam cada vez mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres5.

137. O mundo do trabalho é um mundo em conflito: conflìto entre capital e trabalho, não por causa da própria natureza do trabalho humano, mas pela forma como os homens o estruturam socialmente. O Papa, "Laborem Exercens", analisa longamente este conflitos. Ele acontece não apenas na área industrial-ur­bana, mas também, de forma própria, na área agríco­la. Agravou-se na última década e continua agitando fortemente nossa sociedade. Basta lembrar as gran­des greves urbanas e rurais, bem como a violência com que, tantas vezes, foram reprimidas essas mo­bilizaçôes dos trabalhadores, suas organizações e seus líderes. A rude violência no campo é um dos sinais do agravamento do conflito capital-trabalho.

138. Esse conflito se revela concretamente na ques­tão do salário. De fato, o salário justo se torna "e­riticação concreta da justiça de cada sistema sócìo­-econômico"', na medida em que consegue ou não remunerar digna e eqüìtativamente o trabalho.
13g. Porém, segundo dados do bIEESEa, em 1987, o rendimento médio real dos trabalhadores caiu em 34.3%. O salário médio de 1987 foì o menor da his­tória do salário mínimo no Brasil, isto é Cz 4.726,44 ou 36.3°i° do salário mínimo de julho de 1940. 0 sa­lário mínimo chegou a ser inferior a 50 dólares men­sais, um dos mais baixos do mundo. No Brasil isto se agrava se considerarmos que a participação dos saóá­rios no produto industrial representa apenas ó7 /°, menos da metade da média geral dos países (42 /o) e inferior à média da América Latina (27°°)s. O arro­cho salarial em nosso país atinge proporções espan­tosas.

140. O descompasso atual da política econômica aumenta a recessão e acentua o desemprego, levando ao desespero milhares de famílias. Analistas econõ­
micos estimam que o desemprego e o subemprego atingem pelo menos 1/3 da população economica­mente ativa. Essa situação vem expondo a população, principalmente nos grandes centros urbanos, à mar­ginalização e à violência.

141. A Constituinte acaba de reduzir a jornada se­manal de 48 para 44 horas. Mesmo assim esta é uma das mais longas do mundo. Na prática, muitos traba­Ihadores, quer para não perder o emprego, quer para aumentar os salários, sâo obrigados a fazer numero­sas horas-extra, às custas da saúde e da vida fami­liar. Em 1986, o Brasil teve o triste título de cam­peão mundial em acidentes de traballw e doenças profissionaisl.

142. Estatísticas ofìciaisll admitem que em 1986, 60,9% da população economicamente ativa ganhava de 0 a 2 salários mínimos, não dispondo, assim, de meios de vida condizentes com a dignidade humana. Essa grande maioria do povo tem que enfrentar cada dìa o desgastante esforço de várias horas de viagem em conduções caras e superlotadas.

143. O aviltamento dos salários e das aposentado­rias, a péssima dístribuição de recursos, a falta de uma Política social coerente, geram condições de vi­da cada vez mais desumanas nos bairros populares, favelas e cortiços. As famílias se desfazem, as cri­anças são entregues à rua.

144. Essa situação tende a acentuar o fluxo das mi­grações internas de contingentes cada vez maiores de pessoas e famílias em busca de sobrevivência. Po rém, o sistema esquece a dignidade das pessoas e as trata como mera força de trabalho. Por outro lado, uma minoria privilegiada percebe altíssímos salários, que chegam às raias do escândalo. Salários esses, muitas vezes conseguidos por barganhas e apadri­nhamentos polítìcos, tráfego de influência ou mesmo por manipulações escusas da lei. Não podemos es­quecer, ainda, os que, injustificadamente, acumulam empregos públicos ou mesmo recebem sem trabalhar. No Brasil a dístãncia entre os salários mais altos e os mais baixos está entre as maiores do mundo.

145. Ainda como indicador desse quadro de injustiça é preciso destacar o homem do campo, seja ele pe­queno proprietário, parceiro, arrendatário ou assala­riado rural. A ausência de uma Reforma Agrária tão anunciada e tantas vezes adiada, uma política agríco­la orientada pelo modelo agro-exportador e o proces­so de crescente concentração fundiária acompanhado e apoiado, muitas vezes, por um cruel quadro de vio­lência, têm tornado extremamente difícìl a vida do homem do campo, gerando um êxodo rural e um gran­de processo de migração desagregadora da pessoa e da família.

146. Hoje, uma das principais causas da situação de injustiça dos nossos trabalhadores e do crescente e ínaceitável empobrecimento do povo é, certamente, a dívida externa brasileira. 0 endividamento externo representa uma forma moderna do tributo que as me­trópoles cobravam dos povos colonizados. Os bilhões de dólares, que anualmente saem como dinheiro lí­quido exportado para os credores estrangeiros, são
o que o país devería investir para tirar o povo da míséría e criar empregos para as novas geraçõesl2.

147. Nessa sociedade injusta e conflitiva constata­mos, com alegria, a existência de uma classe traba­lhadora que, ao longo dos anos, fazendo frente à opressão, fortalecendo suas associações, sindicatos, outras organizações próprías, vem construindo sua líbertação. Todavía não podemos esquecer outros mí­Ihôes de trabalhadores, especialmente no campo, que ainda não despertaram para a conscíência de sua dig­nidade, do valor de seu trabalho, de sua situação de explorados e não possuem condições de se organizar.

148. Por sua parte, a Igreja, em numerosos seto­res e regiões, tem assumido posturas de decidida so­lidariedade e apoio aos trabalhadores em seus esfor­ços de organização e defesa dos seus dìreitos. Na sua ação pastoral, através das CEBs, Pastorais Sociais e Movimentos, ela tem impulsionado e preparado ínú­meros militantes engajados nas organizações popu­lares, sindicais e partidárías. Esses militantes cris­tãos são presença e fermento evangelizador no Mundo do Trabalho.

149. No entanto, a Igreja encontra dificuldades pa­ra assumir efetivamente a realidade social como rea­lidade do trabalho. As próprías Pastorais Socíaís, co­mo a Pastoral Operária e outras, são, muitas vezes, entendidas pela comunidade eclesial como pastorais de pequenos grupos ou de um setor da realidade so­cial, à semelhança de outras pastoraís setoríaìs. Po­rém, toda a socìedade é marcada pelo trabalho.

150. Exìstem setores da Igreja que encontram difi­culdade em reconhecer e aceitar que as relações de trabalho, na atual organização da nossa sociedade, são de fato conflitivas. A raiz ültima dos conflitos, quer no mundo do trabalho quer em outros setores da vida, está no pecado sob suas várias formas: egoís­mo, ganância, orgulho. O anúncio cristão e a prática da reconciliaçâo, da comunhão e da fraternidade de­vem partír do reconhecímento do confli±o, quer no mundo do trabalho, quer em outros setores da vida e até mesmo nas relações intraeclesiais. O Evange­Iho deve atingir as raízes do conflito para transfor­má-Io realmente em reconcìliação.

151. Constitui outro desafio o afastamento de mui­tos militantes de suas pastorais ou movimentos, de suas comunidades eclesiais, depois de algum tempo de engajamento sócìo-político. As príncipais razões apontadas são as seguintes: o excesso de tarefas as­sumidas pelos mílítantes, configurando um ativismo; o enfrentamento do próprio conflíto social, com as suas conseqüências; a ausência de uma preparação sólida que Ihes permita uma discussão madura com as diversas teorias e princípios filosóficos de inter­pretação da realidade; a falta de um espaço garan­tido e especial onde possam, à luz da Palavra de Deus, aprofundar a própria fé e refletir sobre sua prática e engajamento específicos, sem se desligar da comunidade; as tensões, o pecado, as contradi­ções entre fé e vida, dentro da Igreja; por vezes, uma relação ambígua de alguns setores da Igreja com autoridades governamentaís ou com setores do em­presariado ou com partidos e suas ídeologías.

152. Frente a essa realidade do trabalho, que está em evidente contradição com a dignidade da pessoa humana e com o Evangelho, a Igreja não poda calar. A sua missão evangelizadora tem uma dimensão so­cíal e coletiva inerente à História da Salvação. Há um século que a Igreja, através do seu Ensino So­cial, propõe princípios de reflexão, critérios de julga­mento e diretrizes de ação em vista de profundas renovações no campo do trabalho. É necessário cons­tatar que, infelizmente, essas orientações muìtas ve­zes são desconhecidas pelos cristãos, até pelos pró­prios pastores, e poucas vezes são respeitadas na prática. Propomo-nos reafirmar alguns elementos cen­trais desse Ensino Social, relativos ao trabalho, con­tidos sobretudo em Gaudium et Spes, Laborem Exer­cens e Sollicitudo Rei Socialis.

3. SENTIDO CRISTÃO DO TRABALHO

153. O eixo do ensino social da Igreja é o homem, pessoa solidária, e o seu trabalho. O trabalho serve para caracterizar o ser humano: é uma pessoa, inte­ligente e livre, que trabalha dentro de uma comuni­dade de pessoasl3. O trabalho faz crescer a pessoa humana e nela a solidariedade, a amizade e, com a graça, a verdadeira fraternidadel4. No exercícìo do domínio sobre a natureza, vivido em solidariedade com os outros, o homem manifesta a sua imagem e semelhança com Deus. João Paulo II dìstingue entre o sentido objetivo do trabalho enquanto este pro­duz bens e serviços, considerados em seu valor ob­jetivo, e o sentido subjetivo do trabalho; enquanto este é considerado como atividade da pessoa huma­
na. O valor do trabalho não consiste, primeiramente, em criar produtos, por mais importante que isso seja. Seu valor fundamental está em que o produto resui­ta da atividade de uma pessoa humana, que através deste trabalho realiza sua humanidade e tem direito de prover dignamente sua subsisténcial5. Se o tra­balho assim caracteriza o homem, ele se torna tam­bém o seu primeiro dever.

154. Por outro lado, o trabalhador nâo produz iso­ladamente mas numa comunidade, em solidariedade. Assim "o trabalho manifesta, na vida de uma socie­dade, toda a dimensão da subjetividade do homem e também da subjetividade da própria sociedade, com­posta de trabalhadores. É preciso, pois, considerar todos os direitos do homem em relação ao seu tra­balho e satisfazê-tos a todos"=6.

155. Contudo, essa relação do homem com seu trabalho e direítos conseqüentes são pouco respei­tados e garantidos em nossa sociedade, pois nela vi­gora o conflito entre capital e trabalho, isto é, "de um lado, aqueles que executam o trabalho sem se­rem proprietários dos meios de produção; e de outro lado, aqueles que desempenham a função de patrões e empresários e que são proprietários de tais meios, ou então representam os proprietários"17. Neste con­flito prevalece a prioridade do capital sobre o tra­balho, caracterizando assim um "economismo" em que "o trabalho humano é considerado exclusivamen­te segundo a sua finalidade econõmica"1R, isto é, co­mo mercadorìa. O sentido subjetivo e comunìtário do trabalho, e sua conseqüente dimensão ética, são então negados. Este conflito fez surgir, já no sécu­
Io passado, "uma justa reação social" e fez com que "irrompesse um grande movimento de solidarie­dade entre os homens do trabalho e, em primeiro lu­gar, entre os trabalhadores da indústria"19.

156. Para superar este conflito, a Igreja defende e propõe a prioridade do trabalho sobre o capital, que significa também o primado da pessoa sobre as coi­sas, e a solidariedade entre os trabalhadores e com os trabalhadores.

157. Compreendendo assim o trabalho, ao funda­mental dever do homem de trabalhar corresponde o fundamental direito ao trabalho2°. O desemprego tem dramáticas repercussões na desagregação e no avil­tamento da pessoa humana e de sua família. "Para fazer face ao perigo de desemprego e para garantir trabalho a todos, os que indiretamente oferecem tra­balho [como o Estado, outras instituições ou grupos sociais) devem prover uma planilicação global "21.

158. O trabalhador tem direito a uma remuneração que assegure a ele e sua família uma vida condizente com a dignidade humana. "0 problema=chave da ética social é o problema da justa remuneração do traba­Iho"Zz. O preço real desta remuneraçâo não se mede apenas pelo salário mas também pela participação nos bens produzidos, por serviços e prestações so­ciais em caso de doença, acidente, desemprego, ve­Ihice e outros mais.

159. Ainda que, no atual contexto, o justo salário se torna o índice mais concreto para medir a justiça duma sociedade em suas instituições e estruturas;
contudo, não basta "responder ao trabalho humano só com a retribuição. Porque - como pessoa - o homem não é apenas "executor", mas é também co­-autor da obra que nasce no campo do trabalho "23. Como tal, o trabalhador é também, de alguma forma, co-proprietário. Isso exige a criação de formas de participação nos lucros e na propriedade dos meios de produção24. Conseqüentemente, o trabalhador "tem o direito de decidir deste campo de trabalho. Tem di­reito, como trabalhador, a autogovernar-se. Depois o trabalho humano, mediante centenas e milhares (tal­vez milhões) de lugares de trabalho, contribui para o bem comum da sociedade. Os homens do trabalho encontram precisamente nele (...) o título para de­cidirem a respeito dos problemas da sociedade intei­ra, que do seu trabalho vive e por ele se desenvol­ve "25

160. Na perspectiva de uma sociedade participati­va e solidária, os últimos Papas e o Concílio trisa­ram a liberdade de organização dos trabalhadores. Os sindicatos são "um elemento indispensável da vida social, especialmente nas modernas sociedades industrializadas", para "a tutela de seus justos direi­tos em confronto com os empresários e os proprie­tários dos meios de produção"2s. Os síndicatos re­presentam de forma visível e organizada a dimensão polítìca do trabalho, quer dizer, a sua importãncia na busca e construção do Bem Comum.

161. Junto ao direito de organização sindical, o Magistério da Igreja sempre reconheceu o dìreito de greve como meio "legítimo, observadas as devidas condições e nos justos limites"27. Este direito é necessário, ainda que último, para defesa dos próprios direitos e a realização das reivindicações justas dos trabalhadores. No contexto do "conflìto real entre capital e trabalho", mostra-se o sentido moral do sin­dicato como "um expoente da luta pela justiça so­cial, pelos justos direitos dos homens do trabalho, luta essa que "deve ser compreendida como um em­penho normal das pessoas 'em prol' do justo bem "e não como" uma luta `contra' os outros"z8. Entretan­to, a Doutrina Social da Igreja recusa a interpretaçâo marxista da luta de classes transformada numa es­tratégia absoluta de conquista do poder, mesmo ad­mitindo que as lutas, como fato e meio, sejam par­te do processo de construção da justiça social.

162. No nível internacional, a solidariedade, e nâo a exploração dos países mais fracos pelos mais for­tes, deve caracterizar a interdependência e a igi.ial­dade entre os povos. O endivídamento externo, que deveria ter trazido o desenvolvimento interno dos países pobres, "transformou-se num mecanismo con­traproducente", tornando-se "uma trava e, em cer­tos casos, até mesmo uma acentuação do subdesen­volvimento"29, como afirma o Papa, na Sollicitudo Rei Socialis. A dívída externa, enquanto agrava e deteriora de fato, as condições de pobreza dos po­vos endividados, revela, em seu bojo, um grave pro­blema ético. O pagamento da dívida externa, que hoje vem sendo feito através da exportação de mi­Ihões de dólares em dinheiro líquido, conseguido em grande parte pela exportação de fantástico volume de matéria prima a preços aviltados, deve ficar su­bordinado à manutenção da soberania e das condi­ções de vida dígna das nações devedoras. 0 que está em jogo atualmente não pode ser prioritarìa­mente as contas dos credores internacionaís, mas a vida de milhões de pessoas que não devem sofrer a permanente ameaça de recessão econômica, infla­ção e desemprego, que trazem a miséria e a morte. Porém, não isentamos de responsabilidade, os go­vernantes que agravaram a situação com novos em­préstimos para programas fracassados como o das usinas atômicas, ferrovia do aço e outros. A eco­nomia deve estar subordinada à ética.

163. Frente a uma organização do trabalho social­mente injusta e desigual, o cristão é chamado a dar testemunho da dimensão libertadora do trabalho hu­mano, no seguimento de Jesus Cristo, ou seja, trans­formar o trabalho humano em oferenda agradável a Deus, dando-Ihe "aquele sentido que ele tem aos olhos de Deus mediante o qual o mesmo trabalho entra na obra da salvação"3°. É fundamental, pois, desenvolver uma espiritualidade do trabalho à luz do projeto de Deus sobre o homem e sobre o mundo revelado em Cristo.

164. A "Laborem Exercens" chamou de "Evange­Iho do Trabalho" à doutrina bíblica do Génesis so­bre a criação do homem por Deus à sua imagem e semelhança e sua convocação para participar, me­dìante o trabalho, na mesma obra da criação3', e, sob certo sentido, desenvolvê-Io e completá-Io, trans­formando o mundo num lugar para todos, onde tra­balho e lazer confluem para criar condíções reais de solidariedade entre os homens.

165. Como cristâos encontramos em Jesus Cristo e no seu caminho os critérios para nossa inserçâo na sociedade do trabalho. Ele não apenas viveu uma vi­da de trabalho, ao lado de José e Maria, mas tam­bém, pela sua vida, morte e ressurreição, resgata o valor da pessoa humana e o sentido humano do tra­balho e denuncia as estruturas iníquas em que o tra­balho oprime32.

166. Por conseguínte, uma espiritualidade cristã do trabalho implica, além disso, em descobrir-Ihe a pro­funda ambigüidade em que o pecado a deixou. 0 trabalho é experimentado como alegria e fadiga, bên­ção e castigo, libertação e opressão. Desvendar seu sentido último em Deus, implica descobrí-Io como atividade humana à luz da cruz e ressurreição33.

167. Por fim, enquanto atividade humana à luz do mistério do Cristo, o trabalho visa dar testemunho do mistério de comunhão da Trindade Santa. De fato, o trabalho da pessoa humana, criada à imagem e seme­Ihança de Deus, resgatada e introduzida no mistério do Cristo, está destinado a criar uma nova comunhão dos homens com a natureza, dos homens entre si e dos homens com Deus. Uma espiritualidade cristã do trabalho deve, pois, abrir o homem para o mis­tério da comunhão divina; deve estimular a comuni­dade cristã e assumir o mundo do trabalho numa so­ciedade conflitada e transformá-Io em instrumento de construção de uma sociedade solidária, feita à ima­gem da comunhão trinitária.

168. O aviltamento da pessoa humana, através de condições indignas de trabalho, dimìnui as possibilidades de uma vivência da espiritualidade do traba­Iho. O cristão que, através das organizações, asso­ciações e sindicatos, se compromete com a humani­zação das condições de trabalho, contribui para tor­nar possível a vivência dessa espiritualidade.

4. DESAFIOS E DIRETRIZES

Propomos algumas orientações para a açâo:

169. A Igreja deve assumir mais plenamente, na globalidade de sua vida, o mundo do trabalho e o fato de que esse mundo é conflitivo, pois é esta a realidade social que vìve nosso povo. A necessidade de integrar fé e vida obriga-nos a incorporar essa realidade do trabalho na catequese, na liturgia, na pregação, na espiritualidade, na oração e em toda a vida da Igreja.

170. A evangélica opção preferencial pelos pobres que ilumìna e quer caracterizar a ação pastoral de toda a Igreja, particularmente da Igreja no Brasil, deve concretizar-se em efetiva solidariedade com a imensa massa de trabalhadores que constituem a maioria da população.

171 . Para caminhar nessa direção parece importan­te superar, pela avaliação crítica das nossas práticas e pela formação, as apreensões, reservas e muitas vezes os preconceitos de muitos agentes de pastoral em relação ao conflito no mundo do trabalho.

172. Devemos assumir e afirmar com decisão a primazia do trabalho sobre o capital, porque o fun­damento primeiro do valor do trabalho é o próprio homem-que tem o primado em relação às coisas.

173. Devemos animar vivamente os trabalhadores a se empenharem na "luta pela justiça social, pelos justos direitos dos homens do trabalho". Mesmo quando esta luta "assume um caráter de oposição aos outros, nas questões controvertidas, isso suce­de por se ter em consideração o bem que é a jus­tiça social "34.

174. Devemos animar e incentivar os trabalhado­res a participar de seus sindicatos e se empenhar para ter participação ativa na gestão das empresas35 e nas decisões sobre os problemas de toda a socìe­dade3ó.

175. Os trabalhadores deverão encontrar na Igre­ja um espaço de aprofundamento da fé e de sua formação. Cabe, aos pastores e agentes de pastoral, apoiá-tos na busca de uma educação e qualificação eficaz para o trabalho, em que se visa não apenas a sua capacitação para os modernos processos de pro­dução, mas também uma visão crítica da realidade do mundo do trabalho.

176. Baseada na primazia do trabalho sobre o ca­pital, a Igreja insiste na necessidade de medidas que garantam a função social da empresa (salários justos, organização sindical livre dos trabalhadores nos lo­cais de trabalho, condições de trabalho dignas, ne­gociação permanente, participação nos lucros e até na política econõmica da empresa e outras), e a su­bordinação de toda a propriedade à destinação uni­versal dos bens da terra. Esse deve ser também o empenho de empresários cristãos que se organizam em associações para conhecer e aplicar os princí­pios da Doutrina Social da Igreja.

177. Neste momento em que a Assembléia Nacio­nal Constituinte continua reunida, reafirmamos com relação ao trabalho: a) o direito de todos ao tra­balho e, portanto, a obrigação de toda a sociedade e, especialmente dos poderes públicos, no sentido de empenhar-se para conseguir o pleno emprego; b) para os desempregados, o direito ao "salário-desem­prego" suficiente para a sua manutenção e de sua família; c) igualmente, para os aposentados, um benefício que se aproxime, cada vez mais, do salá­rio do trabalhador ativo, sendo em todo caso, sufi­ciente para sua digna manutenção e a de seus even­tuais dependentes; d) o direito de greve para todos os trabalhadores indistintamente, portanto também para os trabalhadores nos serviços essenciais, ca­bendo ao Estado, mediante apropriadas medidas le­gais, assegurar o funcionamento mínimo necessário desses serviços37; e) salários justos capazes de pro­ver dignamente as necessidades do trabalhador e de sua família (alimentação, saúde, habitação, educa­ção, transporte, lazer e futuro assegurado)38.

178. Reafirmamos a necessidade de uma política agrícola que garanta permanência do pequeno agri­cultor no campo, bem como a execução imediata de uma Reforma Agrária urgente, justa e efícaz: a) com aproveitamento das terras públicas; b) com
desapropriaçâo do latifúndio por extensâo e por ex­ploração; c) com indenízação das terras desapro­priadas, em títulos da dívida pública; d) sem inde­nização das benfeitorias oriundas de recursos públi­cos; e) acompanhada da revisão dos títulos de pro­priedade, a fim de averiguar a legitimidade da posse frente à "grilagem" usada na produção de títulos cartoriais9.

179.  fundamental que nossa atuação seja uma defesa clara dos mais fracos, daqueles que são ví­timas de um injusto processo produtivo. Diante dis­so, a Igreja deve lutar em favor de todos em con­dições injustas de trabalho, especialmente em fa­vor dos menores, das mulheres e dos negros.

180. Com relaçâo à dívida externa, propomos que ela seja submetida a uma auditoria pública, com participação do Poder Legislativo e de organizações representativas da sociedade çivil, para identificar a c.omposição justa da dívida, a partir das responsabi­lidades sobre suas origens e modos de utilização. Com base nessa auditoria e no montante já pago até hoje, a legitimidade da atual dívida ficaria esclareci­da. Em todo caso, a Igreja insiste no princípio que a economia deve estar sujeita à ética e, portanto, não é lícito pagar a dívida simplesmente às custas da fome, da miséria e do subdesenvolvimento do nosso povo4.

181 . A Igreja quer continuar e mesmo renovar o seu esforço de serviço para o sofrido povo trabalhador. Ela tem importantes recursos materiais e humanos de formação já bastante bem utilizados, mas que ain­
da podem ser melhor aproveitados. A Igreja deve acentuar a formação de novos quadros cristâos pre­parados para assumir responsabilidades na sociedade civil e política, para introduzir nela os auténticos va­lores evangélicos. Nesta formaçâo deve ser dada es­pecial atenção à análìse da realidade econõmica, po­lítica, social, ideológica e cultural brasileira. É impor­tante ajudá-tos a desenvolver métodos de análise e de ação que liguem tanto a teoria e a prática como a fé e a vida.

182. Há, também, necessidade de uma formação só­lida dos militantes cristãos nos planos bíblico e teo­lógico, formação que corresponda às sìtuaçôes de conflito e lutas nas quais são imersos, fortificando sua espiritualidade pela experiêncìa pessoal de Deus. As celebrações participativas e adaptadas à lingua­gem e à experiéncia cotidiano do trabalho são mo­mentos privilegiados dessa formação espiritual. necessário aprofundar e buscar uma espiritualidade adequada à realidade operária, celebrando as lutas e a militãncia dos cristâos e, ao mesmo tempo, dan­do espaço de revisâo de vida para proporcionar o amadurecimento na fé e o testemunho cristão no mundo.

183. Para cumprir toda essa sua missão evangeli­zadora no mundo do trabalho, a Igreja deve dar um pleno apoio às pastorais e aos movimentos já pre­sentes nesse meio, aumentando o número de agen­tes engajados prioritariamente neste mundo do tra­balho.

NO MUNDO DA POLITICA

1 . INTRODUÇÃO

184. A sociedade humana tem uma dimensão polí­tica enquanto se organiza e se dota dos meios neces­sários para que a vontade dos membros possa se ex­pressar e alcançar fins coletivos. Do ponto de vísta ético ou dos valores, a política é o conjunto de açôes pelas quais os homens buscam uma forma de con­vivéncia entre os indivíduos, grupos, nações que ote­reça condições para a realização do bem comum. Do ponto de vista dos meíos ou da organízação, a polí­tica é o exercício do poder e a luta para conquístá­-Io. Enquanto abrange, de certo modo, toda a socieda­de e procura regular toda a vida social, a política se torna também expressão de uma concepção do ho­mem e de projetos globais, e suscíta tanto os mais nobres ideais quanto paixões e egoísmos.

185. A Igreja não pode ignorar a polítìca, não ape­nas enquanto instrumento necessário de organizaçâo da vida social, mas sobretudo enquanto expressão de opções e valores que definem os destinos do povo e a concepção do homem. Nos últimos anos, a Igre­ja no Brasit tem-se preocupado maìs explicítamente com a relação fé-política e tem incluído, nas suas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, uma atenção par­ticular às transformações políticas da sociedade bra­sileiral.

186. Ao longo de sua história, a Igreja experimentou momentos diferentes nessa relação com a política. Depois de ficar marginalizada durante séculos da vida política do Impérío Romano, pouco a pouco ela foi penetrando tanto na política que acabou tutelan­do, durante longo tempo, o Estado, exercendo dire­tamente o poder, de modo especial na Idade Média. O complexo movimento político-cultural da Moderni­dade levou a Igreja a reconhecer a legítíma autono­mía das realídades temporaìs e do mundo polïtico2 e a distinguir melhor a sua missão própria, confìada por Cristo, que "não é de ordem política, econômica e social, pois a finalidade que Cristo Ihe prefyxou é de ordem religiosa"3.

187. No entanto, ela está também conscìente de que "pregando a verdade e iluminando todos os setores da atividade humana pela sua doutrina, pelo teste­munho dos fiéis e cristãos, a Igreja respeita e pro­move também a líberdade política e a responsabili­dade dos cristâos"4. "Por isso mesmo faz parte da missão da Igreja preocupar-se, de certo modo, das questões que envolvem v homem do berço ao túmu­lo, como são as sociais e sócio-políticas"5.

188. O fato da presença da Igreja no mundo da po­lítica é inevitável, mas a natureza e a qualidade des­sa presença dependem de sua consciência evangé­lica e profética, do momento histórico e do próprio conceito de política. É a vocação evangélica que nor­teía seu modo de proceder na política. Ela é perma­nente e definìtìva, mas suas implìcações e conse­qüéncias no plano político devem ser pensadas num determinado momento histórico. Nesse sentìdo, cabe sempre, de novo, refletir sobre a fé e a política, já que os eventos históricos nascem da novidade da liberdade humana no entrechoque com as situações mutáveis.

2. MOMENTO HISTÓRICO

189. Salta aos olhos de todos a extrema gravidade do momento que vivemos. A crise atravessa todas as dimensões da sociedade.

190. Em termos gerais, podemos dizer que vivemos há pouco num regime autoritário em que o planeja­mento sócio-econõmico e sócio-político era pensado e decidido por tecnocratas sem a preocupação de atender às exigências, necessidades, anseios popu­lares e sem a devida participação dos segmentos da sociedade. No momento, decisões importantes no setor econõmico e político vêm sendo, cada vez mais, tomadas por parte e por influência de políticos. Acon­tece, porém, que interesses clientelistas ou de pode­rosos grupos econômicos estão bem representados e ameaçam prevalecer sobre as aspirações, necessida­des e interesses fundamentais relevantes da naçâo. Apesar da afirmação do propósito de colocar tais decisões em função do social, as condições do povo, das maiorias pobres se tornam, cada dia mais precá­rias, com nítida perda de poder aquisitivo. E as pers­pectivas de futuro não parecem melhores com a cons­tante presença de surtos inflacionários.

191. O povo desconfia, cada vez mais, da vontade política das elites e segmentos dirigentes em resol­ver os problemas fundamentais da naçâo. Corrr dolo­rosa freqüência, sómos surpreendidos, através da imprensa, com enormes ascãndalos e deslavada cor­rupção, sem que, em contrapartida, apareçam efica­zes punições. Esse descrédito das elites, das clas­ses dirigentes, da classe política, no seio do povo, é altamente preocupante para o futuro de nossa na­ção. Num momento como esse, a Igreja sente-se obrigada a pronunciar-se com sua palavra profética, apesar de causar dissabores a pessoas, talvez bem intencionadas, mas que se vêem arrastadas por es­sa avalanche de desconfiança, descrédito e decep­ção. Tanto mais grave é a situação quanto maìor foi a esperança do povo no ìnício da Nova República, quando parecia que novos horizontes se tinham aber­to no país. Nesses últimos anos têm predominado as decepções sobre os momentos alvissareiros. O tratamento que a "res publica" vem recebendo pelas classes dirigentes atenta contra o bem comum, de modo que ela parece mais uma fonte de benefícios, de privilégios pessoais do que a busca do bem de todos e especialmente dos mais necessitados.

192. Cresce também a consciência popular, atra­vés de organizações, movimentos, sindicatos cada vez mais ligados aos interesses das classes popula­res. É o crescimento da consciência do povo e o descrédito das autoridades e elites até às raias do ceticismo que configuram uma situaçâo ameaçadora. Já os bispos em Medellín percebiam que "um clamor surdo brota de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não Ihes chega de ne­nhuma parte "s e em Puebla insìstiam que o clamor agora é "claro, crescente, impetuoso e, nalguns ca­sos, ameaçador"7.

193. As classes populares percebem, cada día me­Ihor, que precisam assumir o papel de controladoras do poder, especialmente porque ele tem servido qua­se exclusivamente aos interesses das classes domi­nantes. Tal força de controle só se faz possível de modo aficai, se se exige, com persisténcia e atenção, o direito à informação verídica, à manifestação e di­fusão do pensamento, à proposição de objetivos, metas e prioridades alternativos, através de debates, deliberações e decisões com ampla participação po­pular.

194. O conflito cresce à medida em que, por um lado, tais exigéncias se tornam mais evidentes para as camadas populares e, de outro lado, mais esca­moteadas e postergadas pelas camadas dominantes.

195. Entretanto, cabe assínalar a diferença entre o atual momento e o anterior, sob o regime autori­tário, sobretudo no referente a atuação da Igreja. Com efeito, durante os anos de maior repressão, com o fechamento de quase todos os canais de expres­são crítica no mundo opèrário, estudantil e intelec­tual, coube à Igreja ser também voz dos injustiçados, perseguidos, torturados, oprimidos pelo regime. Ocu­pou, por isso, posição de destaque no quadro so­cial e político da nação. Detinha, então, de fato, a quase exclusividade do discurso lìbertárìo ao lado de uma atitude crítica e profética.

196. Na Nova República, o discurso da libertação, assumido por aqueles que se comprometeram com o processo de transição democrática, tornou-se lu­gar comum até mesmo para daqueles que, ontem, foram os principais detentores do poder discriminató­rio. É a enorme dìstãncia vigente entre tal linguagem e a prática diária de suas decisões políticas que mais produz descrédïto, desconfiança e ceticismo no meio do povo.

197. Ao surgir da Nova Repúblíca foi convocada a Assembléia Nacional Constituinte. Um raio de espe­rança inaugurou nova fase da nossa história: a tran­sìção para o reencontro com a plena democracia po­lítica. Sobre o sentido da Constituìção, assim nos ex­pressamos no Doc. "Por uma Nova Ordem Constitu­cional", na Assembléia de 1986: "Nesta perspecti­va de mudança mais profunda, é mister afirmar que a nova Constituição não deverá restringir-se à reor­ganização do Estado e de suas relações com a socie­dade. Ela deverá traduzir a busca de um novo modelo de sociedade, na sua dimensão social, política, eco­nõmica, cultural e internacional. Modelo que se ba­seará nas exigéncias éticas da sociedade humana e na extensão da cìdadania efetiva a todos os brasi­leiros e brasileiras sem exceção. Dentro desse no­vo modelo, caberá a todos os cidadãos o papel de participar co-responsavelmente no empenho pelo aperfeiçoamento social e, ao Estado a função de pro­mover o bem comum, caracterizando uma democra­cia orgânica e particìpativa"g.

198. A Igreja procurou acompanhar o processo de elaboração da nova Carta Magna. Trabalhou para que se incorporassem à nova Constituição os mecanis­mos e instrumentos democráticos que permitissem a participação ativa da população nas decisões de in­teresse coletivo.

199. A campanha das Emendas Populares que mo­bilizou todo o país, foi o tato mais concreto e mais expressivo. As tantas e tão diversas propostas apre­sentadas à Comissão de Sistematização, manifesta­ram grande amadurecimento da consciéncia popular. Já não foi possível, à maíoría dos Constituintes, ig­norar esse fato novo no entrechoque das tendén­cias políticas.

200. Valorizou-se a adoção da participação popular na ordenação da vìda política do país já, hoje, inte­grando artigos da nova Carta, votados em primeiro turno. Uma avaliação de ganhos e perdas nos textos já aprovados, revela apreciável predominãncia de acertos e avanços em comparação às nossas ante­riores Constituições. Revela, também, acentuada con­cordância com muítas das recomendações do nosso documento "Por uma Nova Ordem Constitucional".

201. Auguramos que o grande atendimento às vá­rias reivindicações do povo brasileìro como um to­do, se torne, em breve, o embasamento jurídico da sociedade que todos nós almejamos. Não subesti­mamos as crises que atravessamos no país. No en­tanto, ainda acreditamos que as esperanças deposi­tadas na transìção democrática se tornem realídade.

202. Cabe a cada cidadão e, em especial aos moví­mentos operários e populares, atenção e vigilãncia, a fim de que, nesta última etapa de elaboração da nova Constituição, os ganhos sociais se afirmem e se evite o retrocesso.

3. A CONSCIENCIA DA MISSÃO EVANGÉLICA DA IGREJA NA POLITICA

203. A razâo mais profunda da atitude da Igreja frente à política decorre da consciéncia evangélica de sua missão. Cabe-Ihe iluminar o horizonte da po­lítica pela "verdade sobre o homem" que ela profes­sas. Não fala a igreja em nome de um humanismo abstrato, genéríco. Ela se inspira no Evangeiho, no mistério da Encarnação.

204. Com efeito, ao fazer-se homem, o Verbo de Deus revelou o valor normativo do ser humano, que se torna instãncia crítica de todas as ideologias, de todas as políticas. Jesus quis que as próprias ex­pressões do sagrado estivessem ao serviço do ho­mem, subordinando a prescriçâo do sábado áo seu bem físico e espírítuall°. Se tal afirmação vale do sagrado, quanto mais de outras realídades fumanas. Jesus foi maìs longe ainda. Por causa de sua dígní­dade humana desfigurada, escolheu os mais pobres, marginalizados, oprimidos de seu tempo, como ponto de referência para a prática de seus seguidores. Só quem acolhe a criança entra no Reino de Deus, só aquele que visita os presos, sacia os sedentos e fa­mintos, veste os despidos, merece a verdadeira re­tribuiçâo do Reino. É nesta visâo do homem, que a Igreja se inspira na sua prâtica pastoral em relação à polítíca. Por ísso não é de estranhar que ela con­tinue, insistentemente, defendendo os trabalhadores, os sem terra, os favelados, os desempregados, os pobres em todas as suas formas. Tal missão perten­ce ao mais profundo de sua consciéncia evangélica.
E toda vez que nâo o fez ou não o faz, tornou-se ou torna-se infiel ao Evangelho.

205. No comportamento de Jesus merece, aqui, especial destaque o modo como ele se colocou dian­te do poder e como se referiu ao poder político do seu tempo. Respondendo aos fariseus: "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus "11, Je­sus dessacraliza o poder político que era diviniza­do. Ao mesmo tempo, reconhece sua legítima auto­nomia, estabelecendo uma dualidade (não dualismo) entre a instância religiosa e a instãncia política. Afir­ma a necessidade do Poder na estrutura de uma so­ciedade, como algo que vem de Deus, como declarou a Pilatos: "Não terias poder sobre mim se nâo te houvesse sido dado do alto"12.

206. Por outro lado, preveniu os Apóstolos contra uma falsa concepção do poder ao adverti-tos: "Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as do­minam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele que den­tre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro entre vós, seja o servo de todos "13. Para Jesus, o poder legítimo se caracteriza pelo serviço e não pela dominação. Se é o serviço que deve caracterizar o poder político, ele estende-se a todos os homens, sem acepção de pessoas; prìvilegia, porém, os pequenos, os pobres, os oprimidos. O critério decisivo para julgar o com­portamento das pessoas - e a fortiori dos que de­tém o poder - é atender às reais necessidades da pessoa humana: dos famintos, dos sedentos, dos sem teto, dos sem terra, dos sem poder... Só cor­
responde à evangélica concepçâo do poder aquele que é exercido em benefício do povo que se torna, assim, mediação do poder que vem de Deus. "É por isso que a Igreja (...) proclama que é para o bem da sociedade e para salvaguarda de sua soberania " que o poder é necessário; só isso o justifica '4.

207. Contìnuando a missão de Jesus Cristo, nesta perspectiva evangélica do poder, a Igreja é, conti­nuamente, interpelada a fazer o que Ele fezl5, procu­rando que o seu poder seja Serviço e que o Poder político seja exercido na mesma linha.

208. A Igreja como um todo está, necessariamen­te, envolvida com as realidades terrestres e históri­cas e, portanto, com a realidade política: "Falando ainda em geral, sem distinguir o papel que compete a seus diversos membros, sente como seu dever e dìreito estar presente neste campo da realidade: por­que o cristianismo deve evangelizar a totalidade da existéncia humana, inclusive a dimensâo política"ls, que, por sua vez, atinge todas as esferas da vida hu­mana, inclusive a religiosa.

209. Neste plano político, porém, há diversidade de atuação dos cristãos de acordo com a diversidade do significado da política como nos apresenta Pue­bla: "Devemos distinguir dois conceitos de política e de compromisso político: no primeiro, a Política em seu sentido mais amplo visa o bem comum, no âmbito nacional e no ãmbito internacional. Corres­ponde-Ihe precisar os valores fundamentais de toda a comunidade ( . . . ) Define também os meios e a ética das relações socìais. Neste sentido amplo, a
política interessa à Igreja, e, portanto, a seus pas­tores, ministros da unidade. É uma forma de dar culto ao único Deus, dessacralizando e ao mesmo tempo consagrando o mundo a Ele.

210. °Segundo, a realização dessa tarefa política, se faz normalmente através de grupos de cidadãos que se propõem conseguir e exercer o poder polí­tico para resolver as questões econômicas, políticas e sociais segundo seus próprios critérios ou ideo­logias. Neste sentido se pode falar de política de Partido "17.

211. Para a Igreja, a política partidária é o campo próprio dos cristãos leigosl8, onde gozam de legí­tima autonomia. Compete a eles a obrigação da sé­ria participação política até o nível partidário, saben­do que a política é uma mediação privilegiada da caridade e que a fé cristã a valoriza e a tem em alta estimais.

212. Portanto, frente à política de partido, no sen­tido estrito, a saber, em ordem à conquista ou manu­tenção do poder, a Igreja se situa diversamente se­gundo a função que seus membros desempenham no seu interior e segundo as circunstãncias históricas.

4. AGIR DA IGREJA NA POL(TICA

213. A Igreja no Brasil tem procurado exercer sua missão profética diante dos apelos éticos da nossa realidade nacional. Sua atuação pastoral numa evan­gelização libertadora integra, conseqüentemente, uma dimensão política porque a Igreja. tem o dever de anunciar a libertação de milhões de seres humanos, entre os quais há muitos filhos seus; o dever de aju­dar a nascer esta libertação, de dar testemunho da mesma, de fazer que seja total. Nada disto é estra· nho à Evangelizaçâo"z.

214. A consciência que tem da sua missão evange­lizadora leva a Igreja a:
- publicar documentos sobre a nossa situação po­lítica e suas exigências de justiça social e de consciência moral;
- criar organismos de so!idariedade em favor dos oprimìdos e valorizar as organizaçõès populares e suas iniciativas de participaçâo;
- denunciar as violações dos direitos humanos, aler­tando contra novos mecanismos discriminatórios e contra entidades que se apresentam com falsa feição democrática;
- encorajar a opção evangélica pelos pobres e a su­portar a perseguição e, às vezes, a morte, como testemunho de sua missão profética;
- contribuir para a educação política a fim de que o homem seja sujeito da sua história e exerça com responsabilidade a sua cidadania política;
- acompanhar os cristãos engajados na política par­tidária.

215. No mundo da política, marcado pelo pluralis­mo ideológico conflitivo, a Igreja, respeitando o le­gítìmo pluralismo das opções partidárias e distin­guindo o papel dos leigos e da hierarquia, procura ser um sinal daquela unidade e comunhão, que é vontade de Cristazl e anseio último da humanidade. "Os leigos, de um lado, não podem deixar de procu­rar, no campo sócio-político, uma "práxis" em inde­fectível coeréncia com o ensinamento constante do Magistério "2Z. De outro lado, os Pastores não elabo­rem Doutrina Social da Igreja sem a participaçâo dos leigos cristãos, sobretudo, de pessoas competentes, pois, essa ampla e complexa tarefa "requer a contri­buiçâo de todos os carismas experíéncias e compe­téncias "23.

216. A hierarquia, que exerce a mìssão de alimen­tar, animar a união e a comunhão no interior da Igreja, não cabe tomar posições partidárias, já que com elas antes dividirá o corpo eclesial que promo­verá sua coesão.

217. Cabe à hìerarquia, contudo:
- posicionar-se claramente e de maneira ìnconfun­dível ao lado dos pequenos;
- apoiar grupos e comunidades que buscam se en­contrar para estudar os problemas políticos;
- acompanhar, de maneira educativa, os cristâos que militam nos partidos políticos;
- zelar para que a insisténcia do Papa João Paulo II a respeito da incompatibilidade entre o exer­cício do ministério presbiteral e o desempenho de cargo político partidário, seja, na prática, ob­carvarln

218. Para que os leigos desempenhem sua tarefa es­pecífica é sumamente importante que recebam uma especial e adequada formação para participação po­Iíticar24 que Ihes possibilite:
- aprender a fazer análise da realidade;
- conhecer as propostas e práticas dos partidos e candidatos, aprendendo a respeitar a opção par­tídária dos outros;
- adquirir consciéncia crítica frente à realidade po­lítica;
- desenvolver a sua formação na fé e adquirir sólido conhecimento da doutrina social da Igreja para discernir e avaliar com critérios evangéli­cos a realidade e a ação política.

219. Ouestões delicadas tém se apresentado quan­do agentes de pastoral decidem se candidatar a cargos políticos eletivos, no executivo ou no legisla­tivo. A prática eclesial tem mostrado dificuldades em conciliar os dois encargos. O afastamento pro­visório da missão pastoral, nesses casos, tem sido prática corrente. Mas, em certas Igrejas particulares, a reflexão das comunidades locais tem procurado discernir a conveniéncia, para a evangelização e para a política, do acúmulo de cargos. Em todo caso, um candidato cristão comprometido com a política parti­dária, por força de sua fé, nunca deveria afastar-se da sua comunidade, nem esta deveria marginalizá-Io pelo fato de ser candidato.

220. Os agentes de pastoral devem cuidar, sempre, para que a ação pastoral não seja utilizada em be­nefício de partidos ou ideologiasz5.

221. A Igreja cré contribuir positivamente na for­mação política, sobretudo das classes populares, atra­vés das suas Comunidades Eclesiais de Base, ver­dadeira escola de compromisso. Essas comunidades, com sua função estritamente eclesial, desenvolvem qualidades humanas que servem para plasmar ver­dadeiros militantes cristãos. A pedagogia aí desen­volvida, de respeito à opinião das bases, cimenta uma prática política realmente democrática, procu­rando superar elitismos, dogmatismos, conchavos, deliberações de cúpula impostas ao povo tão comuns em nossa vida política.

222. A Igrejá estimula, também, os cristãos de clas­se média e alta, pertencentes a grupos e movimen­tos de Igreja, comprometidos com as exigéncias do Evangelho, a se engajarem na política partidária, so­lidarizando-se com as classes populares na constru­ção de uma sociedade justa e fraterna.

223. Os partidos políticos são o lugar próprio para as atividades políticas, mas as comunidades ecle­siais podem oferecer aos cristãos uma instância pri­vilegiada para que eles discirnam, deliberem, à luz da fé, questões que, depois, serão trabalhadas em nível estritamente político no partido. A Igreja espe­ra que os cristãos oriundos das CEBs e de outros grupos e movimentos eclesias sejam verdadeiras se­menteiras de uma nova política no país.

224. O grande desafio à missão da Igreja no políti­co é o acompanhamento que ela deve proporcionar aos leigos que militam nas entidades de classe e/ou nos partidos políticos.

225. A militãncia pol5tica dos cristâos, nos últimos anos, tem suscitado preocupações e esperanças:
a) o engajamento dos cristãos na polítíca partidária, até há pouco só concebido em nível pessoal, co­meça a ser questionado. O desenvolvimento do espírito comunitário, a consciéncia da dimensão secular da Igreja como um todo, o entendimento mais apurado da articulação Igreja-mundo abrem perspectivas para um engajamento na política par­tidária em nível comunitário, respeitando-se a plu­ralidade das opções.
b) A formação política dos cristãos requer uma com­preensão do que seja política, um aprofundamen­to da fé e a devida articulação entre as duas. Sem dúvida, a Igreja deverá formar os cristãos numa fé engajada, na mística do compromisso com uma sociedade mais justa. Para tanto, o cristão deverá conhecer a estrutura da sociedade, seus meca­nismos complexos no campo econõmico, social, político, ideológico e cultural. A questão que se põe: a quem cabe dar a formação estritamente política? Aos partidos? A outras entidades da so­ciedade civil? Se não o fazem ou se fazem em dissonãncia com os valores evangélicos, a Igre­ja, querendo evangelizar a dimensâo política, de­verá fazé-Io.
c) A política tende sempre a integrar a eficácia na construção da sociedade - com suas táticas, es­tratégias e programas pela conquista do poder. Isto acarreta, por vezes, perplexidades e angús­tias para os cristãos que têm como projeto as Bem-aventuranças do Evangelho, a cruz de Cris­
to, a gratuidade, o perdão. Os critérios éticos e os valores evangélicos devem estar constitutiva­mente ligados à prática cristã. Conciliá-tos com as exigências e ambigüidades dos partidos cons­titui um grande desafio.
d) Outro problema sempre presente na prática polí­tica dos cristãos é a tentativa de cooptação dos seus quadros por parte de grupos conservadores ou progressistas. A manipulação se concretiza de maneiras diversas:
- utilizando a relígião como ópio do povo;
- instrumentalizando-a para fins ideológicos es­púrios;
- tentando retirar das comunidades eclesiais as lideranças conscientes mesmo mediante su­borno.

226. Uma educação política permanente, em co­munidade, à luz da fé, será a melhor garantia para superar o risco da cooptação.

227. Cabe à Igreja ser uma voz ética e crível nes­se momento, não só através de suas declarações oficiais, mas sobretudo, através do exercício e prática de seus membros nos diversos campos da ativídade humana.
NO MUNDO DA CULTURA

1 . INTRODUÇAO

228. A mensagem evangélica precisa sempre ser transmitida no contexto de um "diálogo de culturas"1 que exige, de um lado, uma profunda fídelìdade ao Evangelho e à autêntica tradição da Igreja e, por ou­tro, um profundo conhecimento e, sobretudo, um pro­fundo respeito pela cultura das pessoas ou grupos sociais com os quais se dialogaz. Se não houver ple­na fidelidade ao Evangelho e à Tradição estaremos deturpando o tesouro de que somos portadores. Se não houver um profundo conhecimento da cultura que se evangeliza e respeito por ela, estaremos impondo em nome do Evangelho, nossos próprios valores e nossa perspectiva cultural; estaremos falando numa linguagem e em códigos ininteligíveis, falando no vazio, falando para nós mesmos.

229. Como em tempos passados, também hoje es­se dilema coloca problemas graves para toda a ação pastoral da Igreja. Como garantir a fidelidade ao "bom depósito da fé"3 e, ao mesmo tempo, "encarnar" a mensagem evangélica nas diferentes culturas?

230. Assumimos o termo "cultura" no seu aspecto globalizante, como processo de humanização decor­rente da natureza livre e racional da pessoa huma­na4, como maneira peculiar através da qual, dentro de um povo, os homens cultivam as suas relações com a natureza, entre sï e com Deus5, como "estilo de vida" comum desse povo, conseqüéncia do seu caráter social. Portanto, "pela maneira diversa de utilizar as coìsas, de trabalhar e de exprimir, de pra­ticar a religião e formar os costumes, de estabelecer as leis e as instituições jurídicas, de favorecer as artes e de cultivar o belo, surgem diversas condi­ções de vida em comum e formas diversas de dis­por os bens da vida. Assim, com estes costumes recebidos, constrói-se o patrimõnio próprio de cada comunidade humana. Constitui-se, assim, um meio definido e histórico, no qual é inserido o homem de qualquer nação ou tempo"6.

231 . Sendo a cultura uma realidade abrangente, cum­pre destacar o lugar decisivo que nela exerce a reli­giâo, por ser esta a que mais profundamente pode penetrar no coração das culturas, isto é, no nú­cleo dos seus valores fundamentais. Se, de uma par­te, as culturas proporcionam ao Evangelho catego­rias mentais, linguagem e símbolos com que comu­nicar a mensagem salvadora de Cristo; por outra par­te, o Evangelho fecunda por dentro e eleva as cultu­ras7, revelando-Ihes o sentido último da realidade do homem e do mundo.

2. A SITUAÇAO ATUAL

232. A inculturação da fé, que sempre constituiu um forte desafio para a ação evangelizadora, apre­senta hoje, para a Igreja no Brasil, algumas caracte­rístìcas próprias, entre as quais parece-nos importan­te destacar dois grandes blocos: de um lado, poderíamos situar toda a problemática envolvida na evan­gelização e relação com a cultura indígena, a cul­tura negra e a chamada cultura popular e, de outro lado, o ingente desafio da evangelização da cultura urbana contemporãnea.

233. No quinto centenário da evangelízação da Amé­rica Latina, surge, naturalmente, a pergunta a respei­to da maneira como a Igreja evangelizou os povos ìndígenas e demais culturas ameríndias no passado e da forma como ela pratica sua missão entre os povos indígenas que ainda restam.

234. Tendemos, por vezes, a julgar os missionários de séculos passados fora de seu contexto histórico e a censurá-tos com uma certa facilidade por atitudes que, hoje, nos parecem inadequadas e até incompatí­veis com a própria mensagem cristã. Em nossa sen­sibilidade cristã contemporânea, assumimos como erro inaceitável a atitude dos colonizadores e dos missionários que os acompanhavam, porque não res­peitaram a cultura da população indígena. A evange­lização da América se fez sobre os destroços dos impérìos astecas, meias e íncas e das culturas ame­ríndias. Com o Evangelho implantou-se, também, o domínio e a cultura dos países colonizadores.

235. Nem sempre os missionários foram bem suce­didos em descobrir as "sementes do Verbo" no cora­ção dos povos indígenas e os valores positìvos de sua religiâo. A restrição do acesso ao sacerdócio de índios e mestiços prejudicou a assimilação do Evan­gelho pelas culturas indígenas.

236. Fenõmeno similar, em forma agravada, repetiu­-se com a POPULAÇÃO NEGRA, trazida à força da África pelos escravagistas. Sua evangelização inicial consistia no gesto do batìsmo sem suficiente evan­gelização e sem a devida integração dos elementos de suas próprias culturas na nova situação de bati­zados. Em grande parte, as religiões dos negros, cul­tivadas às escondidas, os ajudam a conservar muitos elementos culturais que foram gradativamente se en­trelaçando com expressões culturais e religiosas da população branca, indígena e mestiça, influenciando a cultura e a religíosidade popular.

237. Na CULTURA POPULAR descobre-se com faci­lidade o núcleo de uma religiosidade profundamente arraigada e identificada com a Igreja católica, mas marcada, ao mesmo tempo, pela mistura de traços e conteúdos doutrinários e expressões próprias das religiões indígenas ou africanas (sincretismo religio­so). A relìgiosidade popular tem sido subestimada, durante muito tempo, pelos responsáveis oficiais da Igreja, sobrevivendo durante gerações sem interfe­rências do clero e evidenciando, por vezes, um cer­to paralelismo entre as devoções do povo e o culto oficial. A teologìa da libertação, preocupada em ser uma reflexão sobre a caminhada do povo a partir da sua fé, vem descobrindo e valorizando a fecundidade vital da religiosidade popular, tão intimamente ligada a toda a cultura do povo.

238. A cultura popular, enraizada na própria vida do povo brasìleiro através de gerações, está, hoje, ameaçada na sua exìstência pelo crescente é desor­ganizado processo de urbanização e pelo impacto da "adveniente cultura". Na perspectíva latino ameri­cana, entende-se por "adveniente cultura" o estilo de vida que, chegando de fora, propôe impor-se co­mo única solução para o nosso futuro cultural8. Ins­pirada na mentalidade científico-técnica, promovida pelas grandes potências9, ela apregoa uma universa­lidade que é sinônimo de uniformidade que não res­peìta as diferentes culturas, e que equivale à uni­ficação da humanidade, mediante o domínìo de uns povos sobre outros.

239. A missão da Igreja no Brasil enfrenta hoje o grande desafio de "atingir pela força do Evangelho os critérios, os valores, os centros de interesse"1° e as próprias pessoas imbuídas dessa CULTURA UR­BANp, CONTEMPORÃNEA, que alguns denominam co­mo cultura da "modernidade ou mesmo da pós-mo­dernidade". Duas razões tornam esse desafio mais forte para nós:

240. a) É preciso destacar, em primeiro lugar, a prioridade que nessa cultura se atribui à razâo fun­cional, técnico-científica, com uma enorme diversifica­ção de campos do saber, autõnomos ou independen­tes da instãncia religiosa. Daí resultou, como efeito positivo, a dessacralização de tudo o que não é Deus, permitindo, assim, reconhecer a autonomia das rea­lidades terrenasll. Mas, essa mesma primazia atri­buída à razão funcional, leva, em muitos casos, à desvalorização das tradições e ao esvaziamentos de valores ou pontos de referência no campo da ética. O homem urbano é remetido em suas decisões a sí próprio: indivíduo frágil e narcisista. Prisioneiro no círculo fechado da produção e do consumo, na busca permanente da eficácia e lucratividade máximas, o homem urbano tende a abafar suas indagações sobre seus fins substantivos, sobre o objetivo e sen­tido do seu agir, ficando reduzido à categoria de mero sujeito de necessidades. Os mecanismos de produção e mercado nesta nossa cultura urbana ma­nipulam ou provocam o surgimento dessas necessi­dades em vista de uma corrida ao consumismo, que passa a ser fator determinante de identidade social.

241 . Como evangelizar uma cultura (e numa cultura) em cujo centro nâo está mais Deus, ou outros deu­ses, mas o homem, medida de tudo, também dele mesmo, inclinado diante dos ídolos do consumismo e do progresso técnico?

242. b) Uma segunda característica fundamental marca, no Brasil, toda essa transformação cultural que acìma chamamos de "cultura urbana". Trata-se do fato de que toda essa transformação cultural se dá no interior de um país tecnológica e economica­mente periférico. Junto com a tecnologia importam­-se "valores" da metrópole exportadora, a serviço da indústria transnacional da cultura. Esta, por sua vez, padroniza comportamentos, massifica as neces­sidades e descaracteriza as culturas nativas. Os con­sumidores são levados a reproduzir a cultura materia­lista do capitalismo avançado, privando a maioria da população mais pobre de bens e servìços essenciais.

243. A modernidade dispôe de um poder de expan­são como nenhuma cultura antes dela: o próprio ins­trumental tecnológico, a INFORMATICA e os gran­des MEIOS DE COMUNICAÇÃO. Através deles, a mo dernidade se sobrepõe à cultura popular e às cultu­ras das diversas etnias que podem ser perturbadas e até absorvidas pela avalanche da cultura moderna. 244. Os próprios meios de comunicação social cons­títuem um outro desafio para a evangelizaçâo. Eles tém, e terão mais ainda, um grande poder de influ­ncia sobre toda a população. Cabe à Igreja posicio­nar-se diante deste avanço técnico e social e da trans­formação cultural que representa. Ela precisa contri­buir para a formação ética dos profissionaìs dessa área e lançar mão desses meios de comunicação a serviço do Evangelho. Ao mesmo tempo, precisa cons­cientizar os fiéis sobre os perigos de uma entrega passiva à avalanche de comunicações que se oriep­tam prevalentemente por critérios de rentabilidade e tendem a destruir os valores morais.

2. A(S) CULTURA(S)

A LUZ DA MISSÃO EVANGELIZADORA

245. " Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei "1z.

246. O novo Povo de Deus não é uma naçâo ao lado de outras, em termos históricos, sociológicos e cvl= furais. Antes, são convocados homens e mulheres de todas as etnias, nações e culturas para fazerem par­te do Povo de Deus.

247. A evangelização, missão da Igreja, nâo é um processo massificante; é o convíte de adesão a Jesus Cristo, que é dirigido a cada pessoa individualmente. Mas nenhuma pessoa existe isolada do seu ambiente cultural. É pela mediação da cultura de seu ambi­ente social que cada pessoa se realiza. Convocar os homens para entrar no Povo de Deus por uma fé pes­soal não é convìte para abandonar o convívio social de sua comunidade e da cultura desse ambiente.

248. A Evangelização é fundamentalmente um con­vite à conversão. A vocação de todos os homens em qualquer cultura, é entrar no Reino do Deus, inaugura­do por Cristo. O anúncio claro deste chamado pode ser percebido como uma provocação e uma ameaça de desestabilização da cultura no seu núcleo íntimo que é sua relígíão tradicional ou seu fetiche idolátríco substitutivo. Levantar-se-á, não raro, a oposição e a perseguição aos evangelizadores.

249. 0 Evangelho questiona também os "critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interes­ses, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apre­sentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação"13.

250. Temos a certeza de que o Evangelho, a Mensa­gem de que somos portadores, não se identifica com a nossa cultura, a transcende e pode frutificar em outros contextos culturais, pode expressar-se em ou­tros gestos e em outra linguagem, pode "encarnar-se" em qualquer cultura.

251. Portanto, a pergunta fundamental, que desafia toda ação pastoral poderia ser assim expressada: Como evangelizar através de um diálogo e testemu­nho de vida que chegue ao "outro" (pessoa, povo ou grupo social), em seu mundo e em sua ótica própria? Como comunicar a Mensagem Evangélica em sua plenitude, respeitando e assumindo os valores autên­ticos, os símbolos de vida, a cultura do outro?

252. É preciso tomar consciência de que os mensa­geiros do Evangelho de Jesus Cristo são, ao mesmo tempo, e de maneira inevitável, portadores de uma determinada bagagem cultural que não se identifica com a mensagem cristã. Todo e qualquer anúncio evangelizador da Igreja exprime-se, necessariamente, dentro de uma determinada cultura e, por isso mes­mo, ao ser proclamado num outro contexto sócìo­-cultural, deve ser traduzida para o novo universo sim­bólico em questão.

253. Em nosso caso concreto, devemos reconhecer que somos integrantes do chamado "mundo ociden­tal ", cuja cultura é herdeìra do racionalismo. Tende­mos a considerar a nossa, não como uma cultura en­tre muitas, mas como "a" cultura e, por isso mesmo, a partir de nossa ótica cultural. Classificamos, assim, as outras culturas, em,graus de "inferioridade" ou "primitivismo" crescente, na medida em que se afas­tam ou se aproximam da nossa. Não reconhecemos o "diferente" como tal, mas tendemos a enquadrá-Io logo num degrau de categoria interìor.

254. No caso de choque entre os valores do Evan­gelho e os elementos de uma determinada cultura,
a fídelidade à plena verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o Homem exigirá dos agentes da evangeliza­ção um duplo discernimento: o que no seu anúncio é realmente evangélico e o que é meramente cultu­ral? Ove elementos de um determinado contexto só­cio-cultural apresentam diversidade meramente cultu­ral, podendo ser eventualmente assumidos pela Igre­ja na missão evangelizadora e que outros aparecem como realmente contrários à fé cristã? "Em contato com as culturas, a Igreja deve acolher tudo aquilo que nas tradições dos povos é conciliável com o Evangelho, para Ihe dar as riquezas de Cristo e se enriquecer ela mesma da sabedoria multiforme das nações da terra "14.

3. TAREFAS E QUESTIONAMENTOS

255. A missão evangelizadora entre os indígenas está diante do desafio de anunciar a novidade de Cristo e a conservação da cultura indígena, buscando com paciência histórica a assimilação das "sementes do Verbo", já existentes na religião dos povos indíge­nas. Para isto, é precìso, em primeiro lugar, conhe­cer a língua, pesquisar os valores culturais e inter­pretá-tos corretamente.

256. Diante de certas pressões integracionistas, a Igreja do Brasil é convocada para a defesa da cultura e, com isso, da sobrevivência dos povos indígenas que sucumbiriam ao contato rápido com a poderosa cultura dominante.

257. Proclame-se e defenda-se o direito dos povos indígenas de serem sujeitos de sua história e do rítmo de seu acesso à cultura vigente no Brasil.

258. A Campanha da Fraternidade deste ano conti­nue a suscitar estudos e atividades permanentes pa­ra uma nova evangelizaçâo dos descendentes dos povos negros, respeitando e assimilando os valores culturais.

259. Deve ser incentivada a pastoral dos migrantes, que leve em conta a particular situação de desenrai­zamento cultural e religioso a que sâo expostos no choque com a cultura urbana e valorizar sua bagagem cultural como meio de preservar a fé.

260. Há no Brasil uma população cigana que ultra­passa numericamente a população indígena. Ela tam­bém merece os cuidados de uma evangelização adap­tada à sua cultura. O conhecimento desta minoria ética pode ajudar na orientação de outras minorias, pois ela tem conseguido sobreviver na sua identidade cultural, usando recursos da cultura dominante sem ser cooptada por ela.

261 . A cultura popular abrange os problemas sócio­-políticos mas os ultrapassa. A evangelização não pode contentar-se apenas em orientar a luta pela libertaçâo política e econômica, mas tem que se ocu­par profundamente com a religiosidade, elemento fundamental da cultura popular. A Igreja deve reco­nhecer o povo como sujeito da cultura, chamado a integrar fé e vida.

262. O povo das CEBs, na sua maneira criatìva de ler a Bíblia e confrontá-Ia com a vida cotidiano, pro­duz uma teologia popular, elaboração espontânea de sua compreensão da fé. A teologia erudita precisa estudar a espiritualidade do povo, sua experiência de Deus, suas devoções, iluminando-as e eventualmen­te purificando-as. Por outro lado, a teologia acadêmi­ca e pastoral podem enriquecer-se acolhendo a vi­vência vigorosa da fé de nosso povo. .

263. A etimologia indica lìgação estreita entre cul­tura e "culto". Tanto para a religiosidade popular como para as diversas etnias é importante que se acolha a riqueza de elementos culturais capazes de expressar o mistério cristão. No Brasil, país com múltiplas etnias, é necessário estudar a possibilidade de maior pluriformidade litúrgica.

264. A liturgia tem uma missão importante na evan­gelização. A própria celebração faz entender e viver sempre mais o seguimento do Cristo. A liturgia tem inspirado o mundo da arte, em tempos passados. Hojè, a Igreja precisa rever e incrementar o papel da Liturgia não só como louvor de Deus e santifìca­ção do Povo de Deus, mas também como fonte ins­piradora da cultura.

265. Por ocasião do ofertório da Missa já há uma tradição de associar à apresentação do pão "fruto da terra e do trabalho do homem", como matéria para a celebração da Eucaristia, também outros objetos, sím­bolos da realidade social e cultural da comunidade. Esta relação entre liturgia (culto) e cultura deve ser explorada para facilitar a inculturação da fé.

266. A cultura é expressão tanto da dimensão do trabalho pelo qual se produz identidade histórica de grupos e povos, como do tempo do lazer. A "festa" marca as culturas tanto quanto o "trabalho". Sem tempo de lazer, não há espaço para o culto.

267. A Igreja precisa conservar ou então, recupe­rar o "dia do Senhor" como dia do culto, fermento de uma cultura mais aberta a todas as dimensões do homem. Pois a Igreja, celebrando a memória do Se­nhor, insere o culto na vida concreta do indivíduo e na cultura da comunidade.

268. Urge evangelizar a "modernidade". A Igreja não pode cruzar os braços esperando que passe es­sa "moda", julgando a cultura da modernidade estru­turalmente efêmera. Além de denuncìar vigorosamen­te as idolatrias e mecanismos manipuladores da so­ciedade moderna, é necessário valorizar e assumir o que ela tem de positivo. Pois a racionalidade fun­cional no campo científico e técnico não vai parar de buscar sempre novos subsídios para o progresso da sociedade.

269. A visão científica deve ser enrìquecida com a perspectiva antropológica global e sobretudo a visâo ética. Há necessidade de dìálogo interdisciplinar en­tre a teologia e as ciências profanas, aproveitando as chances atuais, uma vez que muitos cientistas já tendem a reconhecer seus limites e a socìedade já não espera a salvação dos tecnocratas.

270. Os cristãos, responsáveis perante o Senhor da história, encontram-se com todos os que têm
senso de "responsabilidade perante os irmãos e  história", mesmo que não tenham fé, para que posa sem juntos "testemunhar o nascimento de um novo humanismo"15 e colaborar na construção de uma cul fura e de uma civilização justa e fraterna.

271. Em face da tensão entre nossa cultura ances­tral e a "adveniente cultura" que irrompe em nosso meio, impõe-se a busca de novas sínteses, pela su­peração dos elementos opostos, conciliando a racio­nalidade da cultura do futuro com a cordialidade ca­racterística da nossa cultura do passado, como já optou Pueblals.

272. A continuidade e a renovação da(s) cultora(s) depende, em grande parte, de seu sistema educacio­nal. A Igreja deve renovar a sua presença no cam­po educacional da evangelização da juventude, en­frentando hoje duplo desafio da cultura moderna, que é rica e exigente no seu discurso racional, na trans­missão de sempre novos conhecimentos científicos e técnìcos (informática), mas pobre em seu discurso ético e simbólico (sentido da vida, relação com a transcendéncia, calor humano, cordialidade).

273. A Igreja, na formulação de sua doutrina (cate­quese, espiritualidade e teologias), de suas leis e de sua liturgia, apresenta aspectos próprios de cultura intelectual, ética, literária e artística. No entanto, a Igreja não visa criar uma cultura própria, paralela às outras, mas ser fermento em todas elas, também na cultura moderna.
CONCLUSÃO

274. Restam, certamente, muitos questionamentos, que exigem um amadurecimento da reflexão, com amplos desafios para a ação.

275. O próprio dinamismo da sociedade atual e o altíssimo ideal evangélico, que nos foi confiado, tor­nam a missão dos cristãos uma tarefa sempre reno­vada e inacabada.

276. Pensamos contudo ter mostrado fundamentos, legitimidade e critérios desta missão. Mostramos, es­pecialmente, o papel que compete aos cristãos leigos. Apontamos pistas de ação para comunidades e mo­vimentos, grupos e pessoas, que querem inspirar-se na fé cristã.

277. Colocamos nosso esforço nas mãos de Deus, para que o abençoe e o torne semente fecunda de novas iniciativas e de uma dedicação generosa e re­ta ao serviço do bem comum. Repetimos a oração com que o Papa concluiu sua última Encíclica so­ciall7, aplicando-a ao nosso povo:

278. "Ó Deus, que destes a este podo uma única origem e quereis reuní-Io numa só família, fazei com que os brasileiros se reconheçam írmãos e promo­vam na solidariedade o desenvolvimento de todos, para que sejam reconhecidos os direitos de cada pessoa e a sociedade brasileira conheça uma era de igualdade e de paz".
Este voto confiamos especialmente à mater­na intercessão da Virgem Aparecida, padroeira do Brasil!

ltaici, abril de 1988